Gladstone

The Tulpa Theory of Mind

(Este texto foi originalmente pensado para publicação no último dia Dois de Abril, mas foi atropelado pelas circunstâncias da vida. Ele é provavelmente o texto mais estranho que já escrevi — o que, num oceano de textos estranhos, deve indicar alguma coisa. Talvez seja o texto mais estranho que qualquer pessoa poderia escrever para um Dois de Abril. Mas continue comigo e tente ler até o final. Mais uma vez, o tema está longe de ser de interesse restrito às pessoas no espectro autista. Como quase sempre acontece, o objetivo fundamental é colocar para fora um par de idéias malucas que não cabem mais em mim, pra poder seguir em frente. Portanto, é basicamente uma massa de texto desorganizada e amorfa, stream-of-consciousness-y. Ainda assim, suponho que possa soar ao menos divertida aqui e ali.)

A Essência do “Eu”

Começarei com uma afirmação incontroversa: Ao menos por ora nós não conseguimos ter o mínimo de acesso à experiência do que é viver sob a pele de qualquer outra pessoa, o suficiente para dizer que conhecemos essa pessoa de fato. Desse modo, todo mundo substitui em suas mentes as pessoas reais, que imagina conhecer, por um “modelo”.

De fato, como se argumenta neste texto, a própria percepção do conceito de consciência esteve, ao menos até o século XVI, muito mais associada a um referencial externo, embutido na dinâmica social, do que é hoje:

With Descartes, consciousness becomes an individualistic, more private and solipsistic state of the mind that is opaque, not transparent, accessible to itself through self-reflection. The rationalist tradition launched by Descartes introduces a transition from cogitamus, ergo sum(we think, therefore I am) to Descartes’s famous cogito, ergo sum (I think, therefore I am).

Phillipe Rochat, “Others in Mind: The Social Origins of Self-Consciousness

Cada um toma consciência de si mesmo pelo fato de que os outros têm consciência da sua existência. E aprende sobre suas características pelo modo com que os outros reagem às suas diferentes ações. Você aprende a gerenciar sua imagem aos olhos dos outros e se vê refletido através da interface da linguagem, verbal e não verbal. Dada a escassez de recursos cognitivos, na prática temos uma simulação de no máximo dois níveis.

Uma consequência é que nossa identidade está espalhada ao longo das diversas pessoas com quem nos relacionamos, o que nos “força” a apresentar configurações ligeiramente diferentes dependendo do contexto social. E as diferenças podem não ser tão sutis.

Teoria (Tulpa) da Mente

Como a maioria das pessoas não recorre a um nível de formalização que justifique o uso da palavra “modelo”, passarei a usar o conceito geral de egrégora, uma entidade psíquica autônoma e influente criada a partir dos pensamentos de um grupo de pessoas - e em particular tulpa, um conceito derivado do Budismo Tibetano (sprulpa: “emanação” ou “manifestação”).

(Sim! A comunidade racionalista em particular tem se apropriado de termos oriundos do ocultismo para representar fenômenos reais descritos na psicologia e na sociologia: Moloch (sistemas humanos respondem a incentivos que quase nunca correspondem às vontades individuais de qualquer um de seus elementos - uma descoordenação maligna que se manifesta, por exemplo, até no Dilema do Prisioneiro), Ra (usado para representar os campos de distorção que surgem em torno de figuras e idéias de autoridade e legitimidade) e Azathoth, por exemplo.)

Para os que ainda não estão cientes do conceito, uma busca rápida por “tulpa” no Google ou no YouTube deve, logo nos primeiros resultados, revelar algo que em um primeiro momento pode soar alarmante/chocante. Afinal, na atualidade o termo foi associado a uma sub-cultura da Internet: Tulpamantes são basicamente adolescentes “desajustados” que entretêm por tanto tempo e de forma tão intensa a idéia da existência de um ser (amigo?) imaginário que termina de fato o transformando em algo que para a maior parte dos efeitos práticos tem uma presença “real”.

Ainda que se mantenha a consciência de que se trata de um ser imaginário, seu funcionamento é automatizado em um nível razoavelmente profundo. Perde-se o controle imediato, superficial, consciente dessa “voz”. É a princípio plenamente possível se desfazer de uma tulpa, mas esse é um processo de prazo tão longo quanto o de sua formação. É como o que os desenhos animados mais antigos costumavam aludir quando seus personagens estavam em situações que envolviam algum tipo de conflito moral (uma discussão ou batalha entre uma versão angelical e outra demoníaca de si mesmo). Com a diferença de que as tulpas são muito mais complexas (porque refletem a realidade e as necessidades que seus criadores vivem) e de poder existir em maior número.

Mas como tudo isso pode ser útil pra uma pessoa no espectro autista — que supostamente tem “deficiências em Teoria da Mente” - , afinal?

O conceito de tulpa é aqui usado como alegoria para referir a um fenômeno psicológico (e sociológico) relativamente complexo: a de que a maioria dos neurotípicos também não faz muita idéia do que se passa na cabeça de uma outra pessoa. Ou seja, quase ninguém tem uma Teoria da Mente tão sofisticada e completa assim. Em parte porque não seria muito eficiente.

Em particular, a maioria parece contar com bons mecanismos para promover a auto ilusão de que na verdade se tem uma boa aproximação para o que é estar na pele de outra pessoa, e se sentem bem ao ignorar o que não sabem. Com frequência são aplicadas categorizações grotescas, derivadas de visões pueris sobre a natureza humana. Também parece existir uma biblioteca de reações intuitivas ao comportamento alheio, reações que foram socialmente validadas. Na maior parte das vezes essa combinação é suficiente para a maioria funcionar bem no tecido social mais imediato, sendo especialmente útil quando não se tem a expectativa e/ou desejo de navegar por dinâmicas sociais (grupos) diferentes daquelas que sempre conheceram.

Em suma, a maioria parece trazer para uma interação nova um conjunto de categorias pré-definidas, templates de modelos, construídos com base no histórico prévio de interações e na “sabedoria socialmente transmitida”. A partir de uma observação inicial e encaixe em uma categoria específica, se a interação continuar e for intensa o suficiente, é possível que pequenos ajustes sejam feitos. Aquele que categoriza sempre vai achar que está interagindo diretamente com a pessoa real, como se a individualidade desta estivesse perfeitamente preservada e respeitada.

Uma parte fundamental do processo de interação social, do ponto de vista da sua eficiência, é ser o mais intuitivo possível, reduzindo o custo de aplicação e manutenção dos modelos a um mínimo. Ter que pensar de forma direta sobre o comportamento de alguém poderia ser visto como um desperdício inaceitável de recursos. Ao menos nos ambientes primitivos onde esses processos se consolidaram.

Outra parte fundamental é que o processo não deve ser completamente passivo. Há uma parte ativa a exercer no jogo social, para simplificá-lo e reduzir os custos das suas falhas de adequação à realidade: Usar máscaras. Jamais revelar sua natureza real. Ao menos as partes mais críticas dela. Ao menos de forma ampla — supõe-se que ter um par de amigos para quem se confessa suas aflições e com quem se comporta de modo natural seja um alívio necessário, um “risco calculado”. Somos educados a não revelar muito de nós mesmos, o que com frequência é racionalizado por meio de algum discurso alusivo à concorrência intensa e pouco leal a que somos submetidos em quase todas as esferas da vida (“não dê munição aos seus inimigos em potencial”, ou seja, quase qualquer um). Mas isso é apenas parte da verdade.

Ao usarmos máscaras, facilitamos a nossa identificação/categorização nos conjuntos mais comuns (de outro modo seremos tomados como “imprevisíveis”) e ainda podemos direcionar a identificação para o modelo (viável) que quisermos, escolhendo aquele que melhor atende às nossas pretensões (“que tipo de pessoa quero ser aos olhos dos outros?”). Note que de certo modo alguma máscara será sempre colocada sobre seu rosto. Diante dessa realidade, é inevitável que uma parcela grande das pessoas prefira ter algum nível de controle ou influência sobre esse processo, ao invés de lutar contra ela. (Do contrário, você pode não gostar da máscara que vão te colocar — pode ser uma completamente equivocada ou, pior, uma das que reservam aos que se recusam a jogar conforme as regras.)

Naturalmente, há quem consiga ver o jogo de máscaras sob uma perspectiva mais utilitária: Veste-se uma máscara para sinalizar adesão a um contrato social implícito cuja manutenção trás mais benefícios sociais que malefícios.

Este texto, no entanto, assume o ponto de vista de alguém que, individualmente, não percebeu tantos benefícios assim da adesão — ou dificuldade de adesão ou mesmo identificação — ao contrato social vigente, que está desatualizado e é inflexível demais.

Indivíduo = Coletivo de Tulpas

Nós evocamos tulpas em muitos outros contextos além das relações sociais. Nesse sentido, tulpas se comportam como agentes semi-autônomos, com funções específicas em nossa mente. Também por isso, elas não refletem muito bem a realidade das pessoas ou coisas em que se baseiam, dependendo do que queremos dessas pessoas ou coisas, da função que elas podem desempenhar em nossa flora mental — modelos de outras pessoas (que você conhece diretamente ou não), modelos de nós mesmos (que podem funcionar como uma unidade ou serem fragmentados), estereótipos, personagens fictícios, marcas, etc. Assim, por exemplo, a sua tulpa do Donald Trump foi construída com base nos vários maneirismos observados nele, expressões usadas com frequência, os traços de personalidade que você extraiu do comportamento dele, as diversas opiniões mais impactantes que ouviu sobre ele, etc.

Nossas tulpas são semi-autônomas porque não temos tanto controle assim sobre como se modificam. Criação e alterações quase nunca acontecem por meio de processos conscientes. Há um processo de polinização cruzada, com a representação mental de alguém, real ou fictício, podendo ser afetada até mesmo por nossa percepção sobre uma marca, por exemplo. Além disso, essas representações podem ser transmitidas por meio de um processo memético, seja, por exemplo, pela opinião de alguém sobre outro, seja pela publicidade (direta e indireta) de uma marca.

Nesse sentido, nossas mentes individuais poderiam ser vistas como memeplexos, como definido por Susan Blackmore em seu clássico “The Meme Machine”: uma coleção de memes que mantêm relações simbióticas entre si. Portanto, a nebulosidade é a principal característica dessa representação. Se você encaixa seu amigo real em várias categorias pessoais ou estereotípicas, é possível que todas elas terminem influenciando a configuração atual da sua representação mental dele. Sua experiência de interação continuada com ele influenciará a própria biblioteca de categorias, afetando até mesmo as tulpas associadas a sua própria personalidade/identidade.

E daí?

O que de concreto foi dito acima é incontroverso — ou ao menos deveria ser, uma vez vencido o potencial perturbador da representação, que, como qualquer outra, só tem valor em sua utilidade prática. Mas como ela pode ajudar a entender a dinâmica social e a nós mesmos, afinal?

Eu tenho esta hipótese, que motivou o texto, de que pessoas no espectro autista, muito mais que não autistas, tendem a manter representações mentais explícitas das outras pessoas. Em alguns indivíduos esse processo pode até envolver um grau razoável de formalização. Como se depreende do que foi apresentado e discutido acima, essa tendência (necessidade) trás alguns benefícios potenciais (por exemplo, para analisar comportamentos menos comuns — depois me perguntem se, contraintuitivamente, aspies dão ótimos psicólogos), mas impõe custos que podem limitar frequência e amplitude das interações sociais. Mesmo se esses processos rodarem apenas de forma semi consciente, a mente estará sempre bem próxima de um ponto de exaustão, e dependerá de alguma estratégia, explícita ou não, de gerenciamento de recursos. Isso a princípio ajudaria a explicar em parte fenômenos ou estados como shutdowns e variações grandes e súbitas na “disposição para socializar”. Minha tese é a de que, quanto mais conscientes desses processos, menos surpreendidos seremos por suas variações.