Tempos de grande ansiedade, então talvez seja boa hora pra revisar os mecanismos que a produzem.
Tempos de grande ansiedade, então talvez seja boa hora pra revisar os mecanismos que a produzem. E também pra falar dos principais meios para reduzir seu impacto sobre nossas vidas diárias.
O que você sente como "ansiedade" tem a ver com uma resposta natural do seu organismo aos estímulos ambientais, de acordo com a avaliação que seu cérebro faz do ambiente. Em ambientes primitivos, o número de vezes em que um indivíduo da espécie humana era submetido à uma situação de risco real - exigindo uma decisão do tipo "ficar e lutar" × "fugir" - era desproporcionalmente alto em relação à maioria dos ambientes modernos.
Assim, a ansiedade não é algo ruim em si e decerto teve um papel fundamental na sobrevivência da espécie. A ansiedade nos deixa mais alertas e perceptivos ao que acontece ao nosso redor, mais focados e fisicamente preparados pra lidar com ameaças em potencial.
Ansiedade e raiva provocam o mesmo tipo de resposta fisiológica: aumentam os níveis de cortisol e adrenalina no organismo. Especificamente, elevações no nível de cortisol potencializam a produção de adrenalina. A adrenalina aumenta sua taxa de metabolismo, gerando rápido mais energia para os músculos, mais força e resistência para a atividade física relacionada à sobrevivência (luta ou fuga). Além disso, o cortisol permitirá ao organismo lidar com os eventuais ferimentos derivados dessa atividade, garantindo que ela não precisará, na maioria dos casos menos graves, ser interrompida.
A adrenalina também te deixa mais focado, minimiza sua sensibilidade às distrações que te atrapalhariam a lidar com a ameaça real. Como, diferente das outras espécies, nossa sobrevivência também depende do uso eficaz de nossos recursos cognitivos, a ansiedade também tem o potencial de aumentar nosso foco em atividades intelectuais.
Mas tudo isso é o que acontece em situações ideais. Muita gente mantém níveis de cortisol acima da média ou do que é normal, e assim se sentem ansiosas o tempo todo. Digo, literalmente o tempo todo. Se essa elevação em relação à média era apenas moderada isso ainda podia ser OK. Ou mesmo benéfico: você tinha um tempo de reação menor (às ameaças reais) e era uma pessoa naturalmente mais "focada". Mas essas "vantagens" faziam mais sentido naqueles ambientes ancestrais.
Os níveis de cortisol aumentam em resposta à uma redução na ativação de receptores GABA-A (ácido gama-aminobutirico). Psicofarmacos como os benzodiazepinicos são "agonistas" de GABA-A, ou seja, se ligam a esses receptores para ativa-los. ("Antagonistas" também se ligam aos receptores, mas impedem que outras substâncias se liguem a eles também.) O álcool também se liga aos receptores GABA, mas mais aos que estão associados às funções cognitivas - como esperado.
Os níveis de GABA aumentam com o uso de agonistas de receptores do opioide mu - por exemplo, as endorfinas, que são naturalmente produzidas pelo hipotálamo. Algumas endorfinas se ligam aos receptores de opioides ligados às funções de respiração, movimentação gástrica e outras. O orgasmo promove a produção de endorfinas, assim como outras atividades físicas vigorosas, comer, ter pensamentos positivos, ou mesmo ... sentir dor. Ópio, morfina, heroína e seus inúmeros derivados exploram suas relações com os mesmos receptores. A morfina, por exemplo, se liga indiscriminadamente a todos esses receptores.
As anfetaminas também têm um efeito ansiolitico porque são estruturalmente similares à adrenalina e se ligam aos mesmos conjuntos de receptores. Ou seja, elas fazem o organismo achar que ja tem adrenalina suficiente e enganam o sistema de resposta ao estresse.
É bom lembrar que todas essas substâncias têm potencial pra causar dependência. Qualquer neuroreceptor se torna hiposensitivo com a exposição contínua à substâncias agonistas. Ou seja, ao longo do tempo você vai precisar de quantidades maiores dessa substância pra produzir o mesmo efeito.
O que isso significa pra pessoas ansiosas? Que a coisa mais fácil e segura a fazer é induzir a produção endógena (isto é, pelo próprio organismo) de opioides. A maneira mais saudável de fazer isso é se exercitando regularmente, praticando uma atividade anaerobica. Outra alternativa saudável é praticar sexo regularmente (de fato, o fim de um relacionamento pode induzir estados depressivos por causa da diminuição dos níveis de opioides no organismo).