Pro-Truth Pledge
Frustrado com a onda de desinformação e a incivilidade do debate público sobre política? Em reação você se afastou do tema, permitiu que ele fosse monopolizado pelas piores figuras da nossa sociedade? Notou que está cada vez mais difícil debater de forma racional qualquer assunto público, mesmo que a princípio distante da dinâmica ideológico-partidária? Que já não dá mais pra falar sobre seu anime preferido sem receber uma saraivada de acusações vindas de todos os pontos do espectro ideológico? Notou que abster-se do debate também está deixando de ser uma alternativa viável, que isso não vai te proteger de ser enquadrado simultaneamente em múltiplas categorias por diversos grupos? Acha mesmo estranho que, de acordo com as vozes radicais (isto é, “As Vozes”), você está em todos os pontos do Diagrama de Nolan ao mesmo tempo? Que a “realidade” é o que dizem de você e não o que você realmente é? Que ainda não ter posição definida sobre um assunto, exigir mais e melhores informações antes de se comprometer, na verdade é o mesmo que ter várias posições repugnantes ao mesmo tempo?
Se você lamenta esse cenário, o que já fez para ajudar a evitá-lo, a reduzir seu impacto sobre pessoas inocentes (que As Vozes na verdade dizem não existir). Se você tem uma identificação ideológica específica — o que é normal e desejável -, o que você já fez para combater os excessos em seu grupo? Você tem mesmo certeza de que a estratégia mais eficiente é enfraquecer o grupo “rival”, custe o que custar? Inclusive a verdade, a adesão aos fatos e a realidade. Tem mesmo certeza de que existe “desinformação do bem”, que explorar o menor acesso à informação dos menos esclarecidos é um deslize ético que se justifica, dadas as circunstâncias? Que manipular as emoções à flor da pele de pessoas com necessidades especiais é aceitável, que no futuro você vai ganhar um prêmio pela Promoção dos Direitos Humanos por ter agido como um cafajeste em boa causa?
O Pro-Truth Pledge é uma iniciativa de grande valor simbólico criado pela organização sem fins lucrativos Intentional Insights, de Ohio, nos Estados Unidos, cuja missão é promover a busca de informações fundamentadas em conhecimento científico consolidado e seu uso na tomada de decisão de indivíduos e organizações, inclusive na esfera política. Como tal, o PTP surgiu como uma reação direta à consolidação naquele país de um cenário político definido pela primazia da persuasão sobre a verdade. (E não se iluda achando ser esta uma mera reação “liberal” à eleição de Trump. DJT não inventou a “técnica”, mas parece tê-la expandido, aperfeiçoado e aplicado com um sucesso que chega ao ponto de “forçar” os adversários a recorrer a estratégias mais sofisticadas de desinformação. É esse risco que o PTP procura mitigar.)
O uso sistemático de estratégias de desinformação no alto escalão da política e administração pública federal nos Estados Unidos parece ser um fenômeno mais recente — daí o choque causado pelo resultado do último pleito presidencial e, principalmente, pelo uso continuado da estratégia no dia a dia administrativo. Em nosso país, no entanto, isso é lugar comum, parte integrante da nossa cultura política. O que é novidade, no entanto, é que nossa reação típica tem sido mais a de adotar os mesmos padrões e incentivar nos cidadãos comuns a adoção de comportamentos motivados pelo desejo de espalhar informações falsas e manipular o eleitorado. Dados o nível de descentralização e as “infinitas” possibilidades de coordenação entre agentes que não se conhecem e não compartilham valor algum além de uma preferência ou anti-preferência política, o potencial de manipulação e influência nos resultados eleitorais, partindo de um mecanismo tão simples e difundido como uma rede social, é difícil de estimar. E, decerto, perigoso subestimar. Não é necessário qualquer coordenação ou intermediação por organizações partidárias. Ou oferta de treinamento. Este poder está disponível literalmente a qualquer um, bastando um mínimo de habilidade com a expressão verbal/escrita e um mínimo de reputação entre seus contatos. Por ora, a maior parte das “punições” sociais tem sido reservadas aos que falham em sinalizar de forma não ambígua lealdade à tribo a que pertencem. Ainda desconheço casos de pessoas que tenham sido punidas por membros de sua própria tribo por compartilhar informações falsas — exceto, talvez, nos casos em que o fizesse de forma tão improvisada a ponto de ganhar a pecha de “aloprado.”
Você se sente acolhido por seu grupo, tem parte fundamental da sua identidade atrelada ao conjunto de valores a ele atribuídos, e tem medo das consequências emocionais de ser excluído? E se eu te dissesse que “adesão à verdade”, “honestidade intelectual” e outros valores correlatos são considerados fundamentais por muitas pessoas? E que, embora minoritárias, elas existem até dentro do seu grupo atual (e possivelmente nos grupos rivais também). E que aderir a essas pessoas e ajudá-las a promover aqueles valores — o que significa rejeitar a maioria que quer agir estrategicamente e manipular — não irá ferir sua identidade, mas na verdade reforçá-la?
Mas como fazer isso, afinal? Primeiro, é preciso encontrá-las. Elas provavelmente são como você, sentem-se frustradas com a falta de ética e moralidade dos seus, mas não sabem o que fazer, com razão não se sentem à vontade para manifestar opiniões mais nuançadas, temem ser excluídas ou algo pior. As redes sociais têm sido usadas para amplificar traços moralmente questionáveis mas populares e conducentes a resultados mais paupáveis e imediatos. No entanto, elas também oferecem meios de sinalizar, com a devida sutileza, valores que você dificilmente teria como promover de forma natural em seu ambiente familiar, escolar ou profissional. Pode ser mais fácil chamar a atenção de alguém, criar curiosidade genuína pela apresentação de um símbolo a princípio despretensioso mas capaz de sinalizar de forma inequívoca seu compromisso declarado com a busca da verdade.
Este é um ano eleitoral em nosso país e até o momento temos um cenário muito incerto e aberto. É possível que sigamos ainda muitos meses desse jeito, e que, ao final, tenhamos uma tão sonhada eleição multipolarizada. No entanto, a eventual existência de terceiras vias não é garantia de uma campanha eleitoral mais “limpa”. Em parte, não se trata mais apenas de um fenômeno emergente das características do pleito, mas também consequência da mera disponibilidade das tecnologias em si. Grandes volumes de dados, acesso gratuito a ferramentas analíticas que você aprende a usar em um nível básico com 8 horas de estudo pela web, muitas oportunidades pra semi-individualizar notícias falsas e mensagens manipulativas direcionadas pelas redes sociais ou mesmo por email. Isso ainda pode parecer meio fantasioso para a realidade brasileira — e mesmo o papel da Big Data e da Ciência de Dados no resultado da última eleição americana pode ter sido sobre-estimado. Mas o impacto potencial mesmo de uma versão atenuada do que se viu nos Estados Unidos não deve ser negligenciado. Exemplos externos ao americano já se acumulam e incluem outros países estratégicos e de dimensões continentais, como a Índia e a Rússia. Assim como ameaças, ainda que insuficientemente substanciadas até o momento, de “intervenção cibernética” externa nas eleições domésticas de países importantes. Esse é um problema que, levado ao seu extremo, é grave e dificilmente poderá ser amenizado pela via regulatória, dadas as dificuldades técnicas envolvidas no traçado de rotas de causalidade ao longo de redes tão descentralizadas e criptografadas. Nesse sentido, parece imperativo investir em uma mudança cultural que ademais tem o potencial de varrer todos os demais aspectos da vida em sociedade: o apreço pela verdade e pela honestidade.
Até o dia 05 de março de 2018 aproximadamente 5.800 pessoas haviam assinado o Pro-Truth Pledge, incluindo 560 figuras públicas e organizações. Assine, inclua um badge na sua página pessoal, peça que seus amigos monitorem e te cobrem por suas manifestações públicas relevantes, que te ajudem a cumprir com seus objetivos declarados. Reaja positivamente quando tentarem te corrigir publicamente: descarte o erro, se for o caso, mas agradeça quem o questionou (caso tenha sido um questionamento honesto; se necessário, consulte um amigo mais “neutro” pra confirmar sua percepção). Crie um pequeno depoimento e explique a seus amigos porque aderiu a esse símbolo.
Imprima a íntegra do juramento e fixe em algum local permitido de seu local de trabalho. Atenda aos que tiverem curiosidade a respeito, inclusive aos que rirem da “ingenuidade” da iniciativa. Imprima cartões ou folhetos para distribuir.
Peça a seu representante ou a seu candidato que assine e assuma o compromisso público de aderir a verdade e a honestidade na apresentação de suas propostas, na crítica a seus concorrentes e nas suas manifestações públicas em geral. Insista que ele faça isso o mais rápido possível, não apenas durante a campanha ou, pior, às vésperas da eleição. Não o permita navegar pela campanha como semi-incógnitas, tente forçá-lo a revelar o que pensa exatamente de cada assunto importante (ainda que descubramos que ele ainda não tem posição definida a respeito). Chame a atenção dele, com a privacidade e nível de discrição que preferir, caso ele cometa deslizes éticos nesses aspectos. Tente convencer seus amigos a votarem prioritariamente com base em critérios relacionados à viabilidade das propostas dos candidatos e menos no objetivo vago de “afastar o inimigo”. Contribua para a quebra dessa maldição das democracias modernas. Essa é provavelmente a única maneira sustentável de promover mudanças sociais significativas: pelo convencimento, argumentação racional e respeito aos demais opinantes (desde que estes também adotem os mesmos valores básicos inalienáveis).
Sabemos que a possibilidade de cair nas armadilhas e tentações do recurso a mentiras e desinformação não é exclusividade dos menos educados. O oposto parece mais provável. Bem conhecemos o cinismo que se nos acomete tão logo passamos a nos considerar membros de uma pequena e seleta elite intelectual em um país de elites sem cultura.
Não seja “estratégico”, seja ético e comprometido com a verdade e com os fatos comprováveis. Reexamine suas previsões apocalípticas sobre as consequências da vitória do candidato X, à luz de informações reais. Quantas das “evidências” oferecidas por seus amigos você mesmo pôde comprovar? Quais são os fatos? Você pode mesmo confiar neles? O que dizem os especialistas menos enviesados? Você aceitaria apostar uma soma considerável de dinheiro na realização desse cenário apocalíptico? Acha mesmo provável que apenas você e meia dúzia de amigos, em meio a um oceano de cegos voluntários, sejam capazes de enxergar os riscos envolvidos na candidatura de X?