Pensando a “disfunção executiva”
Executive dysfunction appears to consistently involve disruptions in task-oriented behavior, which requires executive control in the inhibition of habitual responses and goal activation. Such executive control is responsible for adjusting behaviour to reconcile environmental changes with goals for effective behaviour. Impairments in set shifting ability are a notable feature of executive dysfunction; set shifting is the cognitive ability to dynamically change focus between points of fixation based on changing goals and environmental stimuli. This offers a parsimonious explanation for the common occurrence of impulsive, hyperactive, disorganized, and aggressive behaviour in clinical patients with executive dysfunction. Executive dysfunction, particularly in working memory capacity, may also lead to varying degrees of emotional dysregulation, which can manifest as chronic depression, anxiety, or hyperemotionality.
O tratamento dado ao tema em si ainda parece ser desconfortavelmente nebuloso e tem sido meio que negligenciado mesmo entre os interessados nos temas relevantes às pessoas no espectro autista, por exemplo — talvez pelo foco majoritário que se dá aos problemas das crianças, frente aos problemas dos adultos (embora esses problemas já estejam presentes nas primeiras).
Dependendo do grau de dificuldades imposto pela disfunção e do estágio da vida em que se está, as relações custo-benefício da maioria das alternativas de intervenção psicoterapêutica podem ser bastante desfavoráveis, em especial diante de certos conjuntos de valores, ambições pessoais, etc., das pessoas afetadas. Por outro lado, é possível que a introdução de um ou outro hábito de “alto nível” tenha potencial pra definir uma diferença clara entre “barely functional” e “decently functional”, ao menos para os casos em que os déficits são mais significativos.
Uma idéia que entretenho há algum tempo é que seria possível testar essa hipótese, por exemplo, pela adoção de uma suíte de aplicativos, bastante simples e em grande parte já disponíveis — e pela eventual criação de um ou outro aplicativo pra cobrir funções que não são tão bem atendidas pelo que já existe.
Um exemplo bastante simples: softwares e aplicativos que exploram o clássico “efeito do espaçamento” [1] na consolidação de conceitos ou “information pieces” em geral, na memória de longo prazo. São apps que lembram os tradicionais flash cards produzidos a partir de material que você já estudou, mas que usam um conjunto específico de regras que emergem de modelos matemáticos/estatísticos baseados em curvas de esquecimento, etc. A partir desses modelos são calculados o espaçamento adequado e o conjunto ótimo de informações a apresentar em cada sessão, dados o tipo de informação, seu desempenho em cada sessão de estudo, etc. O uso tradicional é pra antecipar estudos para um teste importante, ou para auxiliar a aquisição gradual de uma habilidade, ou mesmo para objetivos menos formais, como memorizar poemas ou a letra de um par de músicas.
O Anki é provavelmente o melhor e mais conhecido software SRS (Spaced Repetition System) que existe. É gratuito, disponível em “todas” as plataformas e inclui uma versão web, todas sincronizáveis. Dá pra aprender a usar só pela leitura do tutorial dele mesmo, mas eu sugiro começar por aqui.
Mas de longe a possibilidade que mais me atrai é seu uso para apoiar a formação de hábitos e a memorização de resoluções. Para alguns, é fácil criar planos, considerando diferentes horizontes de tempo e níveis de detalhamento, mas difícil colocá-los em prática. A maioria desses planos, em especial aqueles voltados a mudanças de hábitos. requerem um bom nível de atenção a detalhes (identificação de contextos) e o carregamento constante na memória de trabalho de uma série de “regras” sobre como agir em contextos específicos (seja uma ação simples e automática, seja proceder uma certa reflexão). Em particular, dado o “assalto sensorial” a que somos submetidos e nem todos somos capazes de filtrar de forma natural e eficiente.
Ainda da Wikipedia:
Executive processes are closely integrated with memory retrieval capabilities for overall cognitive control; in particular, goal/task-information is stored in both short-term and long-term memory, and effective performance requires effective storage and retrieval of this information.
Neste texto, o autor faz referência à instalação de novos “thought patterns”, em substituição à padrões antigos e inadequados (não otimizados). A principal dificuldade, nesses casos, é vencer a inércia natural resultante de décadas de execução impensada e automática de certos comportamentos e pensamentos. E note que existe uma diferença importante entre reconhecer por um instante a necessidade de executar uma determinada ação ou comportamento (auxiliado por um alarme recorrente no telefone, por exemplo) e lembrar ativamente do motivo pelo qual a regra foi criada.
Alguns exemplos simples:
- No ambiente de trabalho, em meio às suas tarefas correntes (em que você provavelmente está muito focado — e precisa desse nível de atenção), há um anúncio aparentemente importante feito por um superior, traduzível em uma regra “fraca” mas universalmente aplicável, que se espera ver cumprida com regularidade; você faz uma anotação rápida e, ao chegar em casa, gera um cartão relacionado a isso no Anki.
- De modo similar, no contexto de um relacionamento afetivo, registrar uma resolução pessoal derivada de uma observação feita por seu companheiro, quiçá neurotípico, a respeito de um comportamento que o afeta negativamente; por exemplo, algo relacionado a sua falta de atenção natural a pequenas mudanças de humor ou a outras necessidades que em geral não são expressas verbalmente, de forma explícita. (Não há qualquer garantia de que isso irá funcionar e ser suficiente, mas a simples demonstração de que você se mantém consciente da importância dessas coisas para seu companheiro pode ser o mínimo necessário pra salvar um relacionamento. Aconselha-se, no entanto, não contar a ele sobre o uso desse apoio tecnológico, ou, de um modo geral, permitir que ele tenha acesso aos seus decks.)
Note que, nesses casos, os únicos hábitos que você provavelmente não vai conseguir usar o Anki para ajudar a instalar são os relacionados ao uso do sistema em si: lembrar de treinar sempre que possível (por exemplo, no seu trajeto de ônibus ou enquanto usa o banheiro) e de criar novos cartões para registrar as novas informações e regras relevantes.
Por fim, os mais atentos já devem ter enxergado o óbvio potencial de aproveitamento desses aplicativos no apoio às estratégias de intervenção relacionadas à Terapia Cognitivo-Comportamental.
Ainda segundo a entry da Wikipedia para “executive dysfunction”, os déficits resultantes da condição poderiam ser divididos em duas categorias amplas:
- Aqueles que afetam as habilidades de auto-regulação
Incluem as dificuldades para manter a atenção por períodos relevantes de tempo (independente da presença de outros estímulos ambientais), de flexibilidade/dinamismo/adaptabilidade (buzzwords nas descrições de qualquer vaga de emprego em grandes empresas), para evitar agir impulsivamente e para regular as próprias emoções. Nesta mesma categoria está a dificuldade para ter uma noção funcional do nível de esforço necessário para executar uma dada tarefa. Com frequência, mesmo uma pequena variação em uma tarefa rotineira pode conduzir a erros graves de avaliação. Aqui, uma coisa que pode ser útil é fazer previsões formais regulares do tempo que levaremos para cumprir tarefas, comparar com o cenário realizado e acumular o registro de seu desempenho ao longo do tempo, garantindo a repetição de um ciclo de aprendizado sobre a natureza das tarefas e de suas próprias limitações. Existem alguns sites e apps disponíveis para registrar previsões e seu desempenho, alguns com um elemento comparativo/competitivo (voltados para previsões públicas), outros ideais para fazer previsões pessoais (privadas). Para previsões pessoais, eu recomendo o app sugerido/apresentado neste texto.
Há aqui um mecanismo de reforço interessante com o que é proporcionado fazer com aplicativos como o Anki. Se você pretende usar o SRS como meio de apoiar a consolidação de hábitos mais alinhados a seus valores pessoais e conducentes à realização dos seus objetivos, é bastante possível que você irá querer internalizar instâncias que envolvem algum conjunto de vieses cognitivos clássicos. Por exemplo, evitar a armadilha de tomar decisões muito fundamentadas no status quo ou na existência de custos irrecuperáveis, respeitar os axiomas da probabilidade, selecionar uma classe de referência apropriada, etc. Reduzir o impacto desses vieses sobre suas decisões irá afetar diretamente sua habilidade para estimar o nível de esforço necessário para executar uma tarefa e prever o seu desempenho no contexto particular. Todos nós somos particularmente enviesados na avaliação de nossas próprias habilidades e provável desempenho, sendo esse um fato reconhecido na literatura em psicologia cognitiva — em geral nos sobre-estimamos, mas também é comum termos menor auto-confiança do que seria racional ter. (Note que, de fato, em alguma medida, CBT é uma forma de “racionalidade instrumental aplicada”.)
- Dificuldades que afetam comportamentos orientados a objetivos (outro must-have do mercado de trabalho moderno)
Incluem dificuldades com o gerenciamento do tempo pessoal, organização e para avaliar seu desempenho parcial ao longo da execução de uma tarefa. Também afeta sua capacidade de planejamento em geral, que em algum nível já é uma desabilidade quase universal; ver a “falácia do planejamento”.
I knew it perfectly well, but still committed it until I tracked predictions; this is true both of my own mundane activities like writing, and larger more global events (recently, running out the clock on the Palestinian nationhood UN vote).
This was interesting because it’s so easy to make excuses — I would’ve succeeded if not for X! The question (in the classic study) is whether students could predict their projects’ actual completion time; they’re not trying to predict project completion time given a hypothetical version of themselves which didn’t procrastinate. If they aren’t self-aware enough to know they procrastinate and to take that into account — their predictions are still bad, no matter why they’re bad. (And someone on the outside who is told that in the past the students had finished -1 days before the due date will just shrug and say: regardless of whether they took so long because of procrastination, or because of Parkinson’s law, or because of a 3rd reason, I have no reason to believe they’ll finish early this time. And they’d be absolutely correct.) It’s like a fellow who predicts he won’t fall off a cliff, but falls off anyway. If only that cliff hadn’t been there, I wouldn’t’ve fallen! Well, duh. But you still fell. How can you correct this until you stop making excuses?
“Planejamento” é um processo dinâmico que requer o desenvolvimento de uma sequência de ações, sua execução, monitoramento do desempenho, reavaliação e atualização. Mesmo no nível da vida pessoal, essa é uma tarefa não-trivial e aqueles com algum nível mais significativo de “disfunção executiva” parecem ter dificuldades ainda maiores — e que persistem ao longo da vida. Este é um aspecto em que usar alguma forma de apoio tecnológico pode ser fundamental para as pretensões individuais. Nessa área, a diversidade metodológica e de softwares/apps para apoio ao planejamento individual é enorme. Para um texto mais amplo sobre a falácia do planejamento e formas de melhorar essa capacidade, sugiro que sigam este link. Por ora, apenas recomendarei este pequeno app muito simples, que te ajudará a organizar tarefas que são executadas em uma base regular: por exemplo, algum tipo de atividade física, a leitura e estudo de um livro-texto, etc. Basta registrar uma atividade e uma base de regularidade (por exemplo, “quero estudar um capítulo a cada 3 dias”) e lembrar de registrar os passos executados. O app irá atualizar seus planos com base nesses dados, ordenando as tarefas com base em seus graus de importância e estágio de execução, vai sugerir qual tarefa deve ser executada no momento e em qual passo (tempo ou número de repetições de um exercício, número de páginas ou capítulos a estudar, etc.), assim como usar alertas sonoros e/ou visuais para te avisar dos atrasos mais importantes.
[1] Este é de longe o melhor review do assunto que você vai encontrar na web — ou em qualquer outro meio (embora reflita o estado da arte circa 2013).