Opções e Produtividade Pessoal
De um modo ou de outro, a maioria de nós exibe episódios de acrasia, em situações em que traímos nosso melhor julgamento e selecionamos um curso de ação distinto daquele que melhor atende nossos interesses ou aquilo que consideramos ético fazer.
As pessoas costumam tentar aliviar o impacto dessa tendência natural em suas vidas usando dois tipos de estruturas de incentivos: punição e reforço. Esses tipos de incentivos estão por trás da maior parte dos mecanismos e técnicas que nos são sugeridas para ajudar a mudar nosso próprio comportamento, para alinhá-lo com os objetivos que declaramos ter.
Você recorre (de forma individual e voluntária) a uma promessa de punição quando, por exemplo, paga alguém para acompanhar e cobrar seu desenvolvimento ao longo de um projeto pessoal que tem metas intermediárias. (Alternativamente, é possível formar uma parceria com um amigo que tem problemas semelhantes.) Ou quando você se compromete publicamente com um projeto e espera que a possibilidade de ser visto (por pessoas que aprecia ou de quem precisa) como alguém que não leva adiante o que começa a fazer te impulsione a insistir com seus objetivos originais. Esses são exemplos de “punição positiva”, em que uma consequência negativa é apresentada depois do comportamento indesejável, na esperança de reduzir sua frequência no futuro.
Uma estrutura de reforço, por sua vez, envolve a adoção de uma promessa de recompensa caso se execute uma tarefa ou uma etapa de um projeto maior. A ideia é oferecer um estímulo positivo depois de um comportamento que se considera desejável, como meio para aumentar a probabilidade dele ser repetido no futuro. Mas para funcionar corretamente, o prêmio não pode ser algo tão desejado assim, ou a que se tem acesso muito fácil. A recompensa pode ser desde comer um brigadeiro para cada sequência de cinco pomodoros que você consegue cumprir, até se pagar um capuccino naquela padaria legal toda vez que consegue acordar cedo no domingo para trabalhar em seus projetos pessoais. (No entanto, é bom lembrar que usar açúcar como atalho aos sistemas de recompensa cerebral é quase que indistinto do abuso de drogas).
Há quem responda melhor ao risco de punição e há quem seja melhor incentivado pela promessa de recompensa. Em quase todos os casos, no entanto, parece haver uma tendência a se atingir um platô, ou mesmo a se começar a regredir a partir de certo ponto (em especial após a frequente decisão de abandonar o uso dos incentivos.)
Outro problema que sempre senti ao ler sobre esses mecanismos de apoio e promoção de novos hábitos é que quase nunca se reconhece que eles são como extremos de um espectro que inclui um conjunto enorme de combinações que quase nunca são exploradas. Esse fato é responsável por excluir muitas pessoas que poderiam ser apoiadas por soluções intermediárias.
Quando penso em combinações de mecanismos de punição e de recompensa, uma imagem que costuma vir em mente é a de uma opção (o instrumento financeiro derivativo).
Ao comprar uma opção você adquire o direito de comprar ou vender o ativo subjacente (financeiro ou físico) por um preço determinado (strike price). Dependendo do tipo de opção, esse direito poderá ser exercido do momento da aquisição (ou próximo pregão da bolsa) até uma data futura específica (opção americana), exatamente nessa data (opção européia), além de outras inúmeras combinações de possibilidades e valores de exercício. Em qualquer caso, a transação, caso se consolide, deverá ser coberta pela parte que vendeu a opção. A realização da transação final, no entanto, é opcional, e depende de uma decisão a ser tomada pelo comprador da opção. Por conta desse risco, o vendedor da opção recebe uma remuneração adicional (prêmio). Assim como outros tipos de contratos derivativos, as opções podem ser usadas como instrumentos para fazer gerenciamento de risco.
Opções são instrumentos negociados entre partes que têm a expectativa de auferir ganhos, em um prazo em geral não muito longo, a partir da referida transação. Mas como aplicar o conceito de opção a um contexto puramente individual? De que modo esse conceito pode ser usado para nos motivar a executar tarefas que de outro modo sofreriam com as flutuações naturais do nosso humor e disposição geral?
Picoeconomia
Diante de nossos problemas cotidianos, temos uma tendência natural a recorrer um número excessivo de vezes a “soluções” de curto prazo. Ou seja, é comum que reduzamos nossa avaliação pessoal de um benefício ou prejuízo quanto mais distante no tempo é a expectativa de o obtermos ou sermos expostos a ele (desconto hiperbólico).
Ainda assim, com frequência tentamos nos impor, com diferentes níveis de sucesso, uma grande variedade de regras de disciplina. Por que fazemos isso, em primeiro lugar, e por que parece tão difícil atingir uma solução de compromisso que seja estável no longo prazo?
Diante de nossos problemas cotidianos, temos uma tendência natural a recorrer um número excessivo de vezes a “soluções” de curto prazo. Ou seja, é comum que reduzamos nossa avaliação pessoal de um benefício ou prejuízo quanto mais distante no tempo é a expectativa de o obtermos ou sermos expostos a ele (desconto hiperbólico).
Ainda assim, com frequência tentamos nos impor, com diferentes níveis de sucesso, uma grande variedade de regras de disciplina. Por que fazemos isso, em primeiro lugar, e por que parece tão difícil atingir uma solução de compromisso que seja estável no longo prazo?
Picoeconomia é um ramo interdisciplinar da Economia e da Psicologia, apoiado pela Economia Experimental e por estudos de imagem da Neuroeconomia, que busca modelar o agente econômico por meio de escolhas intertemporais num mercado intra-pessoal. Nesse mercado, o equilíbrio entre as diferentes preferências é atingido através de uma negociação. O comportamento humano é tratado como um fenômeno emergente, resultado do equilíbrio em jogos de negociação entre interesses intra-pessoais (algo próximo do que acontece, em contextos inter-pessoais, no dilema do prisioneiro iterado).
A representação como um sistema multi-agentes chega a ter um apelo intuitivo. O conflito interno de interesses ou preferências é real, e pode sugerir, em um primeiro momento, soluções de compromisso atraentes mas inviáveis na prática. Com frequência, uma pessoa que tem problemas ocasionais com o consumo excessivo de álcool deseja não ter mais nenhum episódio de bebedeira (um no brainer), mas sem deixar por completo a bebida (que ele gosta e confere vantagens sociais). Para problemas desse ou maior nível de complexidade, aprendemos que existem preferências que não podem ser conciliadas de forma estável (you can’t have your cake and eat it too). Na maior parte das vezes, porém, temos mais espaço para fazer compromissos entre nossos diferentes interesses.
Punição versus Recompensa
Uma outra forma de representar esse conflito interno é assumindo, por simplificação, que ele acontece entre versões diferentes (e sucessivas) de nós mesmos associadas à passagem do tempo. É improvável que ao acordar amanhã você se perceba como alguém de valores diferentes daqueles que tem hoje, mas os níveis naturais de motivação ao longo de seus diferentes interesses, preferências e objetivos declarados podem flutuar em períodos de tempo ainda menores que um dia. O compromisso diário de ir à academia pode se mostrar terrivelmente inconveniente no dia seguinte (por motivos nada racionais).
Assumindo que ter uma vida saudável é algo que se deseja de fato, como se motivar a cumprir o compromisso pessoal de se exercitar diariamente? A naturalidade com que assumimos compromissos e fazemos recurso voluntário a mecanismos disciplinares mostra nosso reconhecimento de que versões futuras de nós nem sempre são tão cooperativas quanto uma referência racional recomendaria. No entanto, nossos métodos de negociação são, em sua maioria, muito primitivos.
No caso da academia, o pagamento prévio de uma mensalidade é o “mecanismo” motivacional mais óbvio; supõe-se que, pudéssemos pagar ao final do mês, apenas pelos dias ou tempo de uso efetivo do espaço e equipamentos, a taxa de utilização seria ainda menor. Mas, para algumas pessoas, o pagamento prévio pelo uso “ilimitado” das instalações durante um mês não é motivação suficiente. A prática de atividade física vigorosa quase nunca é inerentemente prazerosa, e o valor monetário perdido em geral não é alto o suficiente para causar suficiente desconforto.
Por outro lado, também não é desejável adotar uma punição extrema, para isso bastando lembrar que o objetivo é dar um pequeno impulso motivacional para formar um hábito que reconhecemos como positivo em si — caso contrário, a identificação da atividade física com um “peso na vida” (que possivelmente nunca existiu em primeiro lugar) será difícil de desfazer.
Mecanismos de reforço, por sua vez, tendem a produzir o efeito inverso. Para ficar com o mesmo exemplo, digamos que você opte por fazer academia em uma região que não é a mais próxima da sua casa (talvez seja mais próxima do seu trabalho), mas que fica nas imediações de uma padaria que tem o melhor capuccino da cidade. Para alguns, o acesso facilitado (indiretamente, pelas circunstâncias) a um item de consumo desejável pode fornecer motivação suficiente para aumentar a regularidade com que se faz atividade física. A velocidade com que o novo hábito é formado em geral é menor que a velocidade proporcionada pelos mecanismos de punição, mas o resultado parece ser um pouco mais estável.
Opções
E se pudéssemos combinar os melhores aspectos dos mecanismos de punição e reforço, e reduzir o impacto dos seus “efeitos colaterais”?
Como disse acima, ao comprar uma opção (o instrumento financeiro) você adquire o direito de realizar a operação subjacente ao longo de um determinado período de tempo, ou exatamente ao final dele.
No limite, o próprio pagamento prévio da mensalidade da academia poderia ser visto como a aquisição de uma “opção”, no qual você tem o direito — mas não o dever — de usar suas dependências em qualquer momento, quantas vezes quiser e pelo tempo que quiser, ao longo dos 30 dias seguintes. O benefício do exercício desse direito no entanto não é imediato. Muito pelo contrário. Se você está começando agora, vindo de um longo período de sedentarismo, a frequência regular à academia poderá ser especialmente dolorosa no início, com potencial para impactar negativa (embora temporariamente) alguns outros aspectos da sua vida. Existem ainda fatores como o tempo consumido — incluindo o deslocamento até a academia -, o custo de oportunidade das coisas que você está deixando de fazer para ir à academia, etc. Seria positivo, portanto, que tivéssemos algum outro tipo de incentivo que envolvesse a coleta de um benefício mais imediato, talvez de natureza monetária.
Digamos que, em um mundo hipotético, as academias percebessem um custo substancial (e evitável) caso tivessem suas instalações utilizadas a menos de 80% da sua capacidade, em qualquer período do dia, e que por isso fosse do interesse delas oferecer aos seus clientes incentivos financeiros para que seus clientes tenham uma frequência mínima semanal. (Por favor, tente ignorar as inúmeras outras implicações disso.) Suponha que, por conta disso, algumas academias ofereçam descontos substanciais na mensalidade seguinte para os clientes que as visitaram pelo menos 3 vezes por semana em um dado mês. Ou talvez mesmo devolvam 50% da mensalidade paga se aquele critério for satisfeito. É possível que esse esquema — caso não implicasse na elevação da mensalidade em si — fornecesse uma motivação adicional razoável para algumas pessoas.
O exemplo acima, no entanto, claramente não tem a ver com uma opção. Para se aproximar um pouco de uma, precisaríamos — uma vez mais em um mundo hipotético — de um valor pré-pago mais baixo, que te daria o direito mas não o dever de usar as instalações da academia por um número razoável mas não ilimitado de vezes durante 30 dias, utilização a ser paga ao final do período (caso o direito tenha sido exercido). E que, como uma reserva de vaga não utilizada (e portanto que não gera pagamento final) é um cenário negativo para a academia, é do interesse desta incentivar o cliente (comprador do direito de utilização) a frequentá-la — por exemplo, fornecendo um desconto no pagamento do mês seguinte ou mesmo dando a próxima “opção” (reserva ou direito mensal de uso) de graça.
De um ponto de vista pessoal, note que você não tem a obrigação de comprar a opção (direito) de usar a academia nos próximos 30 dias; se o fez é porque provavelmente estava certo de que essa é a melhor alternativa de ação disponível no momento (nesta classe de alternativas) para perseguir um ou mais de seus objetivos.
Mas obviamente não é papel das academias oferecer o melhor conjunto possível de incentivos do ponto de vista exclusivo do cliente. Cabe a ele próprio gerenciar seu fluxo motivacional. (Mas pode ser até que eu esteja passando vergonha aqui, já que, como não frequentador de academias, nem faço ideia dos regimes de precificação com que costumam trabalhar.)
Agora esqueça academias e digamos que você quer se incentivar a realizar uma atividade física solitária que não exige o uso de equipamentos especializados: correr por 30 minutos, três vezes por semana. Ainda que sem uma agenda fixa, digamos que em determinada noite você ache que a manhã seguinte seja um bom dia e horário para correr, e “paga” 30 reais pelo “direito” de fazer isso (um investimento). Se você não exercer esse direito, os 30 reais serão perdidos; do contrário, “receberá” 50 reais (retorno imediato de 20 reais).
Note que perder 30 reais que eu decidi investir previamente (e não dei continuidade) é substancialmente diferente de ser punido depois com 30 reais por não satisfazer um compromisso pessoal assumido. Note, além disso, que o uso das “opções” está muito mais alinhado à flexibilidade necessária para lidar com as incertezas da vida diária: decidindo comprar ou não a opção na noite imediatamente anterior, podemos levar em conta eventos previsíveis ou condições atuais (digamos, você teve um dia extenuante e acha improvável que estará disposto o suficiente na manhã seguinte). Mesmo que alguma coisa mude realmente em cima da hora, o custo de non compliance é claro e você sabe quando e como poderá recuperá-lo (em dois dias de exercício do direito); além disso, é muito menos provável que você se sinta culpado.
Ressalto o fato de ser essa apenas uma discussão geral sobre a aplicação (de alguma versão) do conceito de opções a sistemas motivacionais, com pouco ou nenhum compromisso com o alinhamento da representação aqui implícita ao funcionamento do instrumento financeiro em si. Além disso, por ora estou ignorando os aspectos implementacionais mais obviamente espinhosos, a que poderei me dedicar em breve se sentir que a ideia levantou algum interesse.