O Destino das Voyagers
Ainda que muito pequena, a possibilidade das Voyagers, inativas, serem algum dia interceptadas por civilizações alienígenas — ou mesmo por humanos do futuro — já foi bem comentada e representada na ficção, inclusive em Star Trek.
A Voyager 1 deixou “oficialmente” o Sistema Solar em 2012. A Voyager 2 estaria próxima de encontrar o mesmo destino. Mas, afinal, para onde as Voyagers estão indo? Existe alguma chance delas serem interceptadas por espécies alienígenas inteligentes, próximo de seus sistemas estelares, em um futuro distante?
Sistemas estelares
A Voyager 1 está se afastando do Sistema Solar a uma velocidade de 3,6 Unidades Astronômicas (UA, equivalente a distância entre a Terra e o Sol) por ano — ou 17,1 km/s -, a 35 graus ao norte do plano eclíptico, na direção do Ápice Solar (que é a direção do movimento do Sol em relação às estrelas mais próximas). A Voyager 1 está “apontada” para a constelação de Ofiuco. No ano 40.272, ela estará a 1,7 anos-luz de uma estrela menos conhecida da constelação de Ursa Menor chamada AC+79 3888, também conhecida como Gliese 445 (essa será a menor distância que a Voyager ficará dela). Com magnitude 10,79 (e portanto invisível a olho nu), essa anã vermelha está a 5,39 parsecs da Terra e tem uma massa estimada entre 0,15–0,30 vezes a massa do Sol. Quando a Voyager se aproximar dela a Gliese 445 estará em outra região do céu, mais perto de nós (1,059 parsecs) — ela está se aproximando de nós a uma velocidade de 120 km/s — mas ainda difícil de ver a olho nu (magnitude 5,72). Ainda não encontramos exoplanetas nesse sistema, e mesmo se existirem a possibilidade de abrigarem “vida como a conhecemos” seria remota.
A Voyager 2, que também está próxima de deixar o Sistema Solar, está se distanciando de nós a uma velocidade de 3,2 AU/ano, numa direção a 48 graus ao sul do plano eclíptico, “apontando” para um ponto entre as constelações de Sagitário e do Pavão. Daqui a 40.000 anos, ela estará a 1,7 anos-luz de distância de uma pequena estrela na parte norte da constelação de Andrômeda, Ross 248, localizada a 3,16 parsecs da Terra (que nem pode ser vista a olho nu, magnitude 12,29).
Ross 248 tem 12% da massa do Sol e é uma anã vermelha de luminosidade variável (período de 4,2 anos). Curiosamente, daqui 33.000 anos ela vai superar Próxima Centauri e virar a estrela mais próxima do Sol (0,927 parsecs), mas perderá essa posição novamente daqui a 42.000 anos. Pra ser capaz de manter água líquida um planeta como a Terra precisaria orbitar Ross 248 a uma distância de apenas 0,022–0,054 UA (pra comparar, Mercúrio está a 0,4 UA do Sol), com um “ano” durando 3,6–13,8 dias terrestres. A essa pequena distância a rotação do planeta estaria ligada ao período orbital, com uma face em escuridão perpétua e a outra sob iluminação constante e submetida às referidas variações na luminosidade da estrela. Sem contar que a luz vermelha de Ross 248 é diferente demais da luz solar e seria impossível termos plantas com processos de fotossíntese semelhantes aos nossos. Até o momento não encontramos planetas nesse sistema.
Em 300.000 anos a Voyager 2 estará na metade exata da distância entre o Sol e a estrela Sirius, que pareceria a um humano a bordo uma estrela 4 vezes mais brilhante que o brilho percebido por nós hoje na superfície da Terra. Como as Voyager não têm velocidade pra sair da galáxia, elas passarão a orbitar o centro da Via Láctea, levando 250 milhões de anos pra dar uma volta completa.
Formas de vida em sistemas estelares semelhantes
As duas estrelas mencionadas são comparativamente pequenas, bem menos quentes e menos brilhantes que o Sol. Toda estrela, independente de sua cor predominante, emite luz em todas as faixas do espectro, com diferentes distribuições. Essas anãs vermelhas emitem tão pouca luz mais para o extremo azul do espectro que o céu em seus planetas tem uma coloração que vai de branca a vermelha, dependendo, também, da composição de suas atmosferas.
Nesse cenário, o processo de fotossíntese teria um “resultado visível” fundamentalmente diferente. Certamente essas plantas não seriam verdes como a maioria das nossas, já que elas teriam que otimizar o processo de acordo com a disponibilidade de luz nas diferentes partes do espectro — e portanto desenvolver pigmentação diferente. (Que a cobertura vegetal na Terra é predominantemente verde é algo que se pode ver até do espaço, de uma distância considerável.) Considere as duas estrelas para onde as Voyagers estão direcionadas, que emitem mais infravermelho do que nas cores visíveis (e especialmente quase nada de azul), assim como um planeta parecido com a Terra, na região habitável dessas estrelas. Para absorver o máximo possível da luz com essa distribuição ao longo do espectro, as plantas precisariam ter cores mais próximas do preto (mas podem ter outras cores também). Independente da cor, pra um observador humano na superfície desse planeta, elas pareciam muito escuras, já que pouca luz na parte visível do espectro chega até lá.
O problema de Gliese 445 e Ross 248 é que a zona habitável é perto demais da estrela e o lado continuamente exposto à iluminação ainda sofreria com variações ferozes da luminosidade (em especial radiação ultravioleta), com períodos relativamente curtos. Então qualquer planta nesses ambientes precisaria ter desenvolvido algum tipo de proteção contra UV (como uma casca resistente ou algo assim). Ou, se forem plantas aquáticas, ter uma maneira de se mover mais para o fundo pra se proteger nos períodos mais UV-intensos. Tapetes de algas e cianobactérias seriam capazes de fazer isso.
Aliás, talvez essa seja a única forma de sobreviver em um planeta desses: debaixo d’água. Na superfície, a partir da radiação recebida (que é principalmente infravermelho), a fotossíntese pode não ser capaz de produzir energia suficiente pra gerar o oxigênio necessário pra bloquear a radiação UV. A princípio, 9 metros de profundidade já seria suficiente pra se proteger em alguns casos.
Em todo caso, é importante lembrar que essa é apenas uma fase do desenvolvimento da estrela, e tão logo ela se torne mais “calma”, novas possibilidades se abrem para as formas de vida.