Gladstone

Minha experiência com bullying

De vez em quando alguém pergunta sobre minha experiência pessoal com bullying.

Eu participei de um programa de televisão uma vez e, perguntado, disse que "ao contrário da maioria, eu tive sorte de não ter sofrido bullying" (e falei das condições privilegiadas que pude viver, de ter estudado praticamente a vida escolar inteira em uma mesma escola, com uma mesma turma base, etc.)

Mas é claro que isso é apenas parte da verdade. Especialmente no fundamental, eu era muito impopular (na verdade, "invisível" é a palavra correta), e isso não me deixava muito satisfeito. Eu ficava alucinado pra ver (achar) qualquer demonstração de que alguém queria interagir comigo ou me achava interessante de algum modo.

Embora a base da turma fosse a mesma, tinha alguma flutuação, e os novatos acabavam cedendo à tentação de mexer comigo (e os habituais na época ainda não me defendiam). Então eu às vezes via nas tentativas de bullying uma demonstração de interesse. Com frequência eu até dava sugestões pra eles de como melhorar as brincadeiras humilhantes comigo. Isso assustava a maioria (inesperado demais), enfurecia um ou outro (não ficava no meu papel de direito), e no fim isso me poupou de sofrer algo mais concreto.

Uma "estratégia" completamente acidental, que demonstra como a não satisfação de uma necessidade (direito?) básica tem o potencial de distorcer nossa visão de mundo. (Não acho que tenha derivado de uma simples incapacidade de ver o óbvio da situação, mas que tenha sido uma racionalização pra preencher uma necessidade emocional.)

Então essa história até soa engraçada às vezes e há quem diga que tenha sido uma "saída brilhante", mas a verdade é que não houve mérito algum e o que termina sobressaindo é esse tom triste da constatação de que até mesmo uma experiência largamente privilegiada não deixa de conter parte dos elementos típicos das relações abusivas e suas consequências.