Fundamentos da produtividade pessoal
A maior parte das já famosas sugestões para aumentar a produtividade das pessoas é, por natureza, um grande tiro no escuro, de ambas perspectivas (autores e quem tenta aplicar). Necessariamente, elas resultam de simplificações grosseiras (universalizantes) da psicologia humana, das circunstâncias/histórico específico das pessoas, de seus valores e objetivos. Fatores que a maioria dos entusiastas da produtividade pessoal (consumidores desse tipo de conteúdo) não é capaz de analisar (em parte pelo baixo investimento prévio em auto conhecimento). Esses fatores são fundamentais para definir seu engajamento emocional com um sistema ou conjunto de recomendações. Além disso, “produtividade/melhoramento pessoal” é uma área que sofre intensamente de efeitos de sinalização de virtude (esforço, dedicação).
Nesse sentido, se toda dica ou sugestão nessa área fosse “honesta” teríamos como resultado textos com 80% de disclaimers, 20% com conteúdo à primeira vista tão alienígena que pareceria que o autor queria diminuir a produtividade dos leitores.
Como isso não é uma medida prática e dado ser esta uma indústria enorme e extremamente lucrativa que não vai retroceder ou se adaptar tão cedo, a princípio recai sobre seu consumidor e entusiasta do melhoramento pessoal amadurecer. Essa será, quase sempre, uma tarefa hercúlea que ele terá que executar sozinho, sem qualquer orientação. Bem sabemos que parte dos consumidores mais fiéis desse tipo de material sequer tem condições cognitivas pra isso, e que outra parte está comprando exatamente aquilo que procurava (esperança vazia, sinalização de virtude).
Fazer mudanças positivas na própria vida, em um sentido amplo, é uma das poucas coisas que podemos dizer com segurança que se aproxima de um desejo universal. Isso é tanto um ideal objetivo quanto uma força direcionadora. No limite — em particular se somos mais orientados a processos que a resultados -, poderíamos dizer que “mudar para melhor” é a própria razão para viver. É preciso tentar, acreditar que é possível encontrar algum aspecto relevante de nossas vidas que é viável alterar. Com sorte, muitos deles.
Com frequência, a principal fonte de motivação para tentar mudar para melhor são os relatos de outras pessoas. Às vezes testemunhos sobre o processo de mudança, às vezes descrições da nova vida que foi possível alcançar; estes últimos, compreensivelmente, mais impactantes e decisivos.
Mas no início o que temos são apenas promessas, os benefícios, ainda que repetidos por muitos daqueles que consideramos confiáveis, apenas teóricos. Não temos certeza se teremos os mesmos benefícios, ou mesmo qualquer benefício. As narrativas típicas, quase sempre criadas por gente que quer te vender alguma coisa, são grosseiramente simplificadas, e levam a entender que:
- se você não está tentando implementar a mudança X, então há um problema com você (ainda que seja “apenas” falta de ambição);
- se você não conseguiu X, então é porque você não tentou direito (possível falta de empenho);
- se você não percebeu os mesmos exatos benefícios alegados para X (os benefícios mais populares), então há um problema sério com você (ou mesmo, na verdade, você não conseguiu X).
A verdade é que:
- a relação custo-benefício de uma mudança X varia terrivelmente entre os indivíduos e com o contexto; quase não há mudança que não precisemos pensar se vale o esforço ou não;
- na prática, não existe método universal de implementação; o acesso à experiência alheia é de fundamental importância, mas vale pouco se desprovida do contexto pessoal de cada um (um relato que se negue a revelá-lo não passa de uma tentativa de vender alguma coisa inútil);
- não existir um benefício universal para a mudança X também implica que podem existir benefícios menos comuns, inesperados e surpreendentes.
Se tentamos implementar uma mudança X e falhamos, ao menos teremos coletado informação sobre o que nos é específico. Porque não funcionou, que dificuldades não antecipávamos, o que os defensores mais vocais de X nunca dizem, o que podemos fazer diferente na próxima tentativa (e aumentar as chances de sucesso). É auto conhecimento, mas também informação útil a ser compartilhada, em especial em um ambiente com tal escassez de honestidade.
Damos maior valor ao que tem a dizer quem conseguiu X, mas tendemos a ignorar os que falharam. Mas aquele que tantas vezes tentou alcançar X, abordando o problema de diferentes ângulos, e que está disposto a fazer um relato honesto das suas descobertas, tem igual ou maior valor.
Na próxima edição da newsletter vou tentar apresentar de forma concreta a minha própria experiência, fazer uma pequena coletânea das medidas estranhas que parecem ter dado certo.