Gladstone

Free Solo

Eu não sou muito bom em quase nada na vida, mas eu sei que sou bom ao menos nisso. Durante a escalada me senti um “profissional”

– Alex Honnold, sobre a escalada do El Capitán

A sensação de ter atingido o máximo do desempenho humano, na mais difícil das atividades já criadas, deve mesmo ser boa.

Inusitado escrever um texto pra recomendar um documentário. E ainda mais sobre “alpinismo” Mas desde que o Gwern fez um breve comentário a respeito do filme em uma edição da newsletter dele fiquei “ligeiramente obcecado” com a história do Alex Honnold. É até possível que alguns — ou muitos — de vocês já tenham visto ou ouvido falar de “Free Solo”. Usarei o documentário para falar de temas associados a produtividade e realização pessoal, auto ajuda, nature vs. nurture, excelência vs. inovação, etc.

Documentários sobre mountain/rock climbing meio que viraram febre entre certos tipos de pessoas. Pessoas que provavelmente são bem diferentes da maioria de nós. Basta ver a razoável seleção de docs no catálogo da Netflix (que não inclui este, que é da National Geographic). Mas “free soloing” (ou “free solo climbing”; escalada livre solitária ainda não soa tão bem aos meus ouvidos) é uma atividade muito diferente. Não se usa qualquer tipo de equipamento, nem mesmo uma simples corda pra segurar uma queda. Nem os mais destemidos alpinistas a acham normal — algo como 99% de alpinistas em uma pesquisa teriam dito que jamais considerariam fazer. Nas partes mais difíceis das escaladas, o contato dos dedos com a rocha não é maior do que o que você tem agora com a tela do seu celular. Com frequência é necessário apoiar todo o peso do seu corpo em um único dedo de um dos pés. Para dar um minuto de descanso para os braços, numa escalada de horas, é preciso encontrar uma fresta na rocha para colocar e apoiar as pernas e ficar de ponta cabeça.

A maneira como reagem os profissionais experientes da equipe de filmagem do documentário, todos alpinistas também, deixa isso bem claro. É assustador demais, mesmo pra quem está acostumado a assumir grandes riscos. Em certo sentido, é seguro dizer que esse documentário tem algumas das cenas mais assustadoras que você já terá visto. Mesmo sabendo que no fim tudo correu bem — afinal, de outro modo (provavelmente) não teríamos um documentário premiado pra ver, em primeiro lugar. (Talvez por sentirmos ser esse um alívio temporário, por sabermos ser estatisticamente improvável que alguém como ele morra de velhice.)

Imagine uma competição olímpica individual, em que você sai pra campo sozinho pra realizar uma prova, e se você não tiver desempenho correspondente ao necessário pra ganhar a medalha de ouro com folga você morre. E você só disputa competições de nível olímpico — na verdade é o único tipo de campeonato que existe. (E essas provas não são assistidas ao vivo por um público, pequeno ou grande, apenas registradas em vídeo por um par de pessoas só um pouco menos malucas que você.)

O documentário menciona vários free soloists que morreram, incluindo no mesmo período da filmagem. Mas segundo Alex, eles morreram fazendo outras atividades mais ou menos relacionadas (como BASE jumping), e que nunca alguém morreu durante as escaladas mais difíceis ou partes mais sérias das escaladas. Os acidentes seriam mais comuns durante a preparação (que é feita com equipamento) ou partes mais rotineiras das escaladas livres, quando é mais fácil acontecer de você não se preparar o suficiente ou distrair-se. O próprio Honnold teve o único acidente mais sério da carreira (fraturas de compressão em duas vértebras) em uma situação de menores consequências (e ele estava usando equipamento, óbvio).

“Free Solo” gira em torno da longa preparação para e escalada do lendário El Capitán, um enorme bloco natural de granito de mais de 900 metros em Yosemite. Escalado pela primeira vez — com equipamentos, claro — (apenas) em 1958, um projeto coletivo que levou 47 dias pra ser concluído, espalhados ao longo de 18 meses. A escalada do El Cap (em qualquer estilo) já matou cerca de 30 pessoas desde 1905.

A pessoa

O free solo é uma modalidade que parece demandar mais estabilidade mental que desempenho físico. Honnold não parece realizar uma preparação física intensa ou específica. Ao longo do documentário você o vê apenas fazendo alongamentos e flexões de braço. Ele também não usa técnicas sofisticadas de preparação mental, apenas simples “visualização”. Quase não tem preocupação com a dieta, embora seja vegetariano, opção que ele afirma ter sido adotada por motivações ambientalistas, não nutricionais. Na verdade ele come e dorme surpreendentemente mal — ele viveu em uma van por quase 10 anos — pra alguém que talvez seja o ser humano mais impressionante vivo neste momento. (A escalada do El Capitán definitivamente o auge do atleticismo e estabilidade mental da espécie humana.)

Honnold tem 34 anos e já é uma pequena celebridade há um bom tempo, embora eu só tenha ouvido falar dele há dois dias. São inúmeros vídeos com ele no YouTube com milhões de visualizações. Ele se tornou mainstream com “Free Solo” e as várias premiações que o documentário ganhou, culminando com o último Oscar.

Não surpreende que ele tenha muitas características associadas ao espectro autista. Ele tem dificuldade pra expressar emoções, ao menos de um modo tradicional. Tem poucos interesses — na verdade um único interesse, desde a adolescência -, e dificuldade pra investir em qualquer outra coisa, inclusive em relacionamentos. (Apesar disso, ele está em um relacionamento duradouro desde 2015, cuja complexidade é bastante explorada pelo documentário.)

Embora fosse cognitivamente capaz, mostrou pouco interesse pelos estudos, e deixou um curso de Engenharia Civil em Berkeley logo no primeiro ano (após quase não ter assistido aulas e sem ter conversado com uma única pessoa sequer lá). Sua insipidez emocional é gritante, e está sempre precisando de um desafio maior pra se motivar a viver, pra justificar seu lugar no planeta.

Controle do medo

Em certo ponto o documentário questiona até mesmo se Honnold é capaz de sentir medo. Ou, ao menos, se seu alto rendimento deriva de alguma atipicidade neurológica (de algo mais “profundo” que o autismo). Vemos Alex fazendo um exame de ressonância magnética funcional. Embora intacta, a ativação da amigdala frente a imagens assustadoras é baixíssima.

Como parte de sua minuciosa preparação para as escaladas, Alex faz uso intenso de técnicas de visualização. Tem um diário cujas entradas relê e comenta com grande regularidade. Mapeia e visualiza todos os cenários possíveis, incluindo as dezenas de coisas que podem sair errado (e suas terríveis consequências), até “aceitar” cada um deles.

Rever memórias antigas é algo que todos nós fazemos, mas quase nunca de forma ativa, o que nos impede de controlar e extrair o maior valor possível do processo. Para atividades que se repetem ou para as quais houve intensa preparação, a visualização funciona mais ou menos da mesma maneira, e trás uma sensação de competência. Que em consequência reduz a ansiedade (relacionada àquela atividade). Colocar-se repetidamente, de forma controlada, em situações que te provocam medo e ansiedade continua sendo uma das melhores formas de melhorar seu rendimento em uma atividade ou tarefa.

Honnold tem uma combinação rara e privilegiada de características. Tem conscienciosidade altíssima (traço de personalidade associado a habilidade de concentração e disciplina) e baixíssimo neuroticismo (não fica remoendo coisas que são improváveis de acontecer ou pensando naquilo que não está ao alcance dele mudar). Mas o que é de fato incomum é a combinação disso com o fato de ser um “sensation seeker” (motivação pra buscar experiências intensas). Na verdade, ele é duas vezes mais “sensation-seeking” que a média, e 20% mais que a média dos sensation-seekers.

Pessoas com tendência ao abuso de drogas em geral são sensation-seekers, mas são impulsivos: têm baixa conscienciosidade e alto neuroticismo.

Alex não é uma pessoa que está apenas buscando uma forma mais elaborada de se matar. Para um alcóolatra, as consequências imediatas de uma única bebedeira são pequenas, mas se acumulam no longo prazo. Para Alex, um único atendimento ao seu “vício” pode ser fatal, toda dose precisa ser planejada minuciosamente.

Honnold pode ter nascido com um cérebro privilegiado, mas, por suas escolhas, também moldou-se menos reativo a ameaças que afugentam e desestimulam a maioria das pessoas.

Busca por excelência

Honnold começou a escalar (indoor) por volta dos 10, 11 anos. Mas ele não se acha particularmente talentoso. Diz que só melhorou (rápido) porque praticava muito. E só praticava tanto porque era a única coisa que ele gostava de fazer.

Como esperado, alto rendimento é um dos temas centrais de “Free Solo”. Alex está todo tempo se colocando no limite, mas de uma forma extremamente controlada. Nesse aspecto, ele parece algo como o oposto de caras como o David Goggins, que buscam se colocar em situações desconfortáveis por elas mesmas, esperando que essa exposição os beneficie no longo prazo. Ao contrário de Goggins, porém, Honnold é pura motivação pessoal, não deseja converter ninguém — até por sentir que suas características naturais são raras demais. E é por isso que histórias como a dele oferecem o melhor tipo de “auto ajuda”: a oportunidade de observar a vida de alguém, talvez com habilidades extra-humanas, de um ponto de vista quase que puramente descritivo, de extrair aquilo que é aplicável e útil ao seu contexto pessoal.

Mas, afinal, o que significa alto rendimento? Quais são seus custos e seus benefícios? O que leva alguém a querer atingir esse nível de excelência, em primeiro lugar?

No caso de Alex, é o máximo de incentivo possível ao refinamento da prática e preparação: o menor erro é punido com a morte. Mas o que precisamos pra reproduzir ou traduzir isso em nossas empreitadas mais mundanas? (E até mesmo lançar-se ao espaço na ponta de um enorme tubo repleto de propelente explosivo parece mundano perto do que Honnold faz.)

E por que devemos incentivar a excelência de um ponto de vista coletivo? Importante lembrar que há um potencial de conflito entre excelência (e profissionalização em geral) e criatividade/inovação. Também nesse aspecto o caso de Honnold parece oferecer uma combinação interessante. A escalada livre solitária é uma modalidade que envolve risco absoluto, então há espaço pra inovação. De certo modo cada parede rochosa específica é uma “especialidade” diferente, exigindo o máximo de inovação pra descobrir uma maneira viável de escalar. Há um núcleo comum (enorme) de habilidades que são transferíveis, mas cada parede rochosa é um universo em si. Não existem duas rochas iguais e a diversidade delas no planeta é estonteante — o próprio Alex pode ser visto pelo YouTube escalando todo tipo de parede rochosa em cada um dos continentes.

Dada sua experiência e rigor do método de trabalho, em quase tudo que faz Honnold lida com baixos níveis de risco, embora em situações em que qualquer coisa é crítica e as consequências são catastróficas. E uma maneira óbvia de desenvolver uma habilidade é se colocar em uma situação em que se pode errar um monte de vezes (risco alto de errar, por causa da inexperiência), com pouca ou nenhuma consequência.