Gladstone

Exploração espacial: previsões para este século

O que podemos esperar ver em termos de exploração espacial ainda neste século? Suponho que grande parte dos leitores deste texto curto será capaz de continuar vivo, em condições razoáveis, até pelo menos 2060, então talvez seja o caso de me limitar ao que seremos capazes de ver ainda em nossa geração. O que segue são opiniões estritamente pessoais. Fazer previsões de longo prazo é sempre um exercício não trivial e cujos benefícios são difíceis de apresentar de uma forma clara e convincente para o indivíduo médio.

A previsão de desenvolvimentos tecnológicos em geral é vista com menos desconsolo que aquela restrita a áreas em que o elemento sócio-cultural é dominante, mas no caso da exploração espacial com objetivos científicos, que envolve somas gigantescas de dinheiro público, ela se mostra quase tão complexa quanto prever os resultados de uma eleição que vai se realizar daqui a duas décadas.

Uma previsão mais óbvia é que muito será investido no desenvolvimento de missões mais compactas (incluindo a redução do peso dos equipamentos, diminuindo necessidades de propulsão e energia para operar os instrumentos científicos) e semi-autonômas (delegando parte das decisões, em tempo real, a sistemas de decisão apoiados por algoritmos de Inteligência Computacional, incluindo decisões de pré-processamento dos dados científicos coletados, o que enviar para a Terra, ordem de prioridade, etc.), que possam ser planejadas em menos tempo que as atuais, gastar menos dinheiro público e alcançar a maior amplitude possível de objetivos científicos em uma só oportunidade. Não deve ser descartado o envolvimento da iniciativa privada, que costuma ter vantagens em termos de flexibilidade, desde que consigam imaginar uma forma viável de monetizar, direta ou indiretamente, as missões. (Imagine algo como um pay-per-view, ou uma missão investigativa inicial a um objeto que planejam explorar comercialmente no futuro próximo.) Outras possibilidades envolvem iniciativas de crowdfunding (mas é improvável que consigam alcançar objetivos mais complexos do que a Lua ou algum asteróide ou cometa) e a iniciativa de uma meia dúzia de bilionários. No entanto, ao menos por ora, não vejo como essas iniciativas sejam capazes de atrair as melhores mentes científicas do mundo, o que reduziria muito o seu alcance. As maiores agências espaciais têm muitas décadas de experiência, que não podem ser transferidas instantaneamente a uma instituição privada, mesmo que levemos a maior parte daqueles que trabalhavam nas primeiras para a segunda.

No entanto, ainda resta saber qual será o papel dos desenvolvimentos futuros em Inteligência Computacional no planejamento e execução das missões de exploração espacial. Parece óbvio ser muito mais provável, como já é hoje, que a maior parte dos desenvolvimentos mais importantes continue saindo de laboratórios privados do que das instituições acadêmicas. Qual será o impacto disso sobre a pesquisa científica, quando ela passar a “depender” amplamente da IC, é uma discussão que já vem sendo feita há vários anos no contexto de várias disciplinas, e a exploração espacial não é diferente. Uma possibilidade é que isso seja um vetor para a ampliação da participação privada nas missões.

Antes de passar para as previsões em si, parece importante citar os meus “valores” e as coisas que eu gostaria de ver, de modo a deixar uma porta para que os leitores possam interpretá-las de acordo com esses vieses. Eu acho as missões tripuladas uma grande perda de tempo e de outros recursos valiosos. Seres humanos, ao menos em sua configuração biológica atual, não estão aptos para essa tarefa (transhumanistas têm um bom argumento nesse ponto, devo aceitar). E não há nada que robôs não possam fazer no espaço, de forma muito superior a qualquer ser humano, exceto turismo. Assim, o foco em missões tripuladas, que ademais são muito mais caras, apenas desvia recursos que poderiam impulsionar a exploração robótica. Aqui, tenho a esperança de que os avanços futuros em Inteligência Computacional tornem a exploração espacial tripulada claramente desinteressante para o contribuinte e/ou cliente. E é possível que a Realidade Virtual ajude nesse aspecto: imagine-se podendo “explorar” a superfície de Marte ou mesmo controlar um dos muitos robôs de pequeno porte que vagam pelo planeta (ao invés de terceirizar essa experiência para um astronauta). Como eu já disse, eu aposto que os desenvolvimentos futuros em Inteligência Computacional serão fundamentais para o planejamento de missões autônomas ou semi-autônomas, que na maior parte dos casos será a única forma de atingir objetivos/objetos distantes, cuja superfície ainda não teremos — e não queremos ter — mapeado prévia e exaustivamente. Em nosso Sistema Solar, sou grande entusiasta de Europa (a lua de Júpiter) e desejoso (embora nada confiante) de viver ao menos o suficiente para ver o anúncio formal da descoberta da primeira forma de vida não terrestre.

Então, o que espero (ou não espero) ver até 2060, afinal?

  1. Não espero ver missão tripulada a Marte, mas o início de uma exploração robótica mais profunda do planeta; diversas agências estatais (agora incluindo Índia, Rússia, China), algumas empresas privadas, talvez vendendo algum tipo de “experiência” para seus clientes na Terra. Devemos expandir bastante nosso conhecimento sobre a habitabilidade atual e passada na superfície do planeta, mas dificilmente teremos uma resposta definitiva sobre isso ainda neste século.
  2. Exploração tripulada da superfície da Lua, mas limitada. Presença humana constante, mas no nível do que temos hoje com a Estação Espacial Internacional. Do mesmo modo, provavelmente sob um acordo internacional. Turismo espacial deve chegar até a órbita da Lua, com preços altos mas não restritos a milionários. Essas previsões sobre a Lua talvez sejam otimistas demais, ao menos considerando o período até 2060.
  3. A Clipper vai realizar todos os seus objetivos científicos e avançará enormemente nosso conhecimento sobre Europa. No entanto, acho improvável que consigamos pousar lá até 2060, mas o objetivo é factível para este século (a Clipper vai ser lançada até 2025 e levar até 6 anos pra chegar lá, e é agora improvável que uma missão de pouso comece a ser planejada seriamente antes de analisar os dados da primeira missão). Também é pouco provável que consigamos buscar por formas de vida explorando apenas a superfície. Será necessário encontrar um meio de perfurar até 10 quilômetros de gelo, em condições completamente inóspitas e pouco conhecidas, e enviar um pequeno submarino para investigar parte do oceano global subterrâneo (preferencialmente ir até o fundo esse oceano). E isso eu infelizmente não acredito que será feito ainda neste século.
  4. Enceladus, a lua de Saturno, é ainda mais atraente que Europa, mas tem a inconveniência de estar mais distante de nós que esta. Uma das vantagens de E é ter algo parecido com os gêiseres terrestres, espirrando água de seu oceano global subterrâneo a até 400 km acima da superfície. (Evidências para a presença de fenômeno similar em Europa são inconclusivas, o que significa que se ele existe deve ser muito menos significativo que em Enceladus. Supõe-se que apenas a Clipper será capaz de resolver o mistério.) Essa é uma maneira muito conveniente de estudar a habitabilidade desse oceano: mandamos uma sonda, equipada com os instrumentos adequados, para voar dentro desses feixes d’água, coletar amostras e analisá-las. Com sorte alguns indivíduos de uma espécie microscópica estariam diretamente disponíveis nas amostras — permita-me sonhar. Mas ver uma sonda terrestre examinando Enceladus me parece factível para o período em questão, e talvez seja nossa melhor chance de encontrar vestígios de formas de vida não terrestre ainda neste século.
  5. Eu estava me restringindo a objetivos científicos, mas deveremos ter os primeiros passos para a regulamentação do processo de extração de recursos minerais de asteróides por parte da iniciativa privada. Até o final do século, isso deverá estar em pleno funcionamento, com um pequeno grupo de empresas implementando ativamente essa estratégia.
  6. É possível que algumas pequenas missões sejam enviadas a objetivos como Vênus, Titã (a lua de Saturno) e Urano, mas aqui a influência das minhas preferências pessoais é grande.