Esperando o futuro chegar
Eu tenho grande interesse em fazer previsões numéricas para eventos que costumam ser objeto de estudo das ciências políticas e ciências sociais. Esses eventos são resultado de processos incontroláveis — ainda que influenciáveis em algum nível - e apenas parcialmente observáveis. E meu interesse é de longa data. Participei como voluntário da segunda e terceira temporadas doGood Judgement Project, objeto do livro Superforecasting, do hoje amplamente conhecido Philip Tetlock. (O livro parece estar na lista de leitura de todo mundo, gente com todo tipo de inclinação e background.) Embora não tenha alcançado o status de superforecaster que vários colegas conseguiram, o avanço foi notório pra alguém que entrou tão “cru” no projeto.
Com este texto é minha intenção sugerir a todas as pessoas mais interessadas nas minúcias da política nacional que ousem tentar formalizar suas visões atuais sobre o processo eleitoral do próximo ano. Em parte faço isso por curiosidade: tenho acompanhado com regularidade os comentários mais analíticos de 3 ou 4 pessoas sobre o assunto, mas há certo nível de clareza de pensamento que só pode ser comunicada de forma eficiente se seu autor imprimir um nível mínimo de formalização.
Existe uma resistência natural em fazer previsões numéricas, ou a formalizar as previsões que se afirma fazer, em particular em política e economia. Os incentivos a que as pessoas respondem nesses casos são bastante discutidos pelo Tetlock no livro dele e eu não quero falar disso aqui porque a princípio eles não são tão relevantes para o que quero discutir. O ponto que quero atacar é a visão de que fazer previsões é um exercício fútil em ciências políticas e sociais. Não é.
Todo “sentimento” sobre um cenário que afeta o mundo real tem uma consequência preditiva, pensemos diretamente nela ou não. Por mais que nos interessemos pelo processo em si, esse interesse é mediado pelo desejo de entender melhor como os eventos são “gerados” a partir dele. Mesmo que achemos impossível atingir o nível necessário de familiaridade pra fazer previsões confiáveis. Por mais difícil que seja prever os resultados de eleições — em especial a nossa do próximo ano — seus resultados afetarão vidas individuais e as atividades de inúmeras instituições, que estão neste momento contratando os serviços de outras instituições, engajadas na preparação de cenários preditivos e pensando no modo como eles devem ser incorporados nos processos decisórios das primeiras. Paga-se muito por esses serviços. E esse é um dinheiro muito bem investido.
Como indivíduos, não precisamos incorrer em custos tão altos pra produzir cenários preditivos. Mas é comum que tenhamos um par de pessoas que acompanhamos e em quem confiamos, talvez por “identificação metodológica”. Ou seja, o “processo gerador de análises” (com a permissão da simplificação) deles parece semelhante ao seu. Mas essas pessoas têm mais conhecimento específico que você, por ter mais tempo pra dedicar a isso, por ter acesso a informações de bastidores, etc. Ou talvez você prefira uma abordagem que incorpora mais diversidade metodológica e deseja agregar as informações geradas por essas perspectivas diferentes. E isso não se restringe a quem faz análises em jornais e sites, mas a seus amigos diretos também. Quantos deles parecem ter opiniões interessantes sobre as dinâmicas subjacentes aos processos eleitorais? Seja como for, sempre esbarramos na ausência de formalização, na dificuldade de gerar informação mais precisa sobre as possíveis consequências das dinâmicas levantadas pelo analista.
É claro que eu estou muito mais interessado no vislumbre do processo subjacente que você me ofereceu com a sua análise do que em uma previsão numérica não explicada. Mas em um sentido bem simples eu só conseguirei ter uma apreciação plena da sua análise se você me mostrar o modo como você acha que ela pode afetar o resultado e o grau de confiança que você dá a isso agora. Mais importante, o valor da sua teoria será medido precisamente pelo modo como ela pretende restringir o espaço de resultados possíveis. Se sua teoria parece ser capaz de explicar ou prever qualquer resultado viável então ela não tem valor prático algum. Como posso saber o que eu realmente penso antes de determinar o que eu prevejo que vai acontecer?
É claro que ninguém constrói uma “teoria” da noite para o dia. Lembremos que estamos falando de análises informais, em geral postadas em blogs pessoais ou redes sociais. Mas esses são entendimentos e reflexões que se acumulam, se atualizam, ao longo do tempo agregam a um retrato que vai se refinando. Cada momento da evolução do seu entendimento é definido por uma consequência preditiva, que vai sendo atualizada junto.
Existem inúmeras maneiras de fazer previsões, mas uma figura fundamental na maioria delas é a probabilidade que se atribui à realização de um determinado cenário ou previsão. Uma vez formulado o cenário, da forma mais clara, não ambígua e facilmente verificável possível, e determinada uma data para verificação, devemos atribuir uma probabilidade subjetiva para a ocorrência desse cenário. Em política em geral e resultados de eleições em particular, nos acostumamos a ver erros graves de modelos preditivos complexos, que usaram grandes volumes de dados. Ora, da conclusão de que “ninguém sabe prever resultados de eleições” (em si uma conclusão duvidosa) não decorre logicamente a de que “essa é uma atividade que deve ser abandonada.” As consequências desses eventos são grandes demais pra isso e as pessoas e instituições ainda precisam incorporar essa incerteza em suas decisões. Além disso, fazer previsões — de modo informal, mas com método — é divertido. A mera contemplação dos futuros que minhas previsões implicam torna o futuro muito mais concreto pra mim. Como viveremos a maior parte de nossas vidas, ou parte significativa das que nos restam, em algum futuro, suponho que essa seja uma perspectiva útil. Ou melhor, imperativa.
Mas como começar, afinal? Grande parte do trabalho do Philip Tetlock foi mostrar que ninguém precisa ser especialista em um assunto pra fazer previsões razoáveis. Ao menos pra determinados tipos de assunto (deixemos de fora, por exemplo, coisas como “quando um determinado teorema matemático será provado”.). Alguns tipos de eventos políticos são um exemplo de coisas que podem ser tão bem quanto ou melhor antecipados por leigos do que por especialistas. Com frequência, um leigo bem informado e com um mínimo de treinamento pra fazer previsões tem um desempenho superior ao de cientistas políticos com muitos anos de dedicação exclusiva mas que não conhecem as leis básicas da teoria da probabilidade. (Esse padrão se reproduz em algumas outras áreas e isso está bem documentado.) Pode ser que conhecimento mais detalhado das minúcias e do cotidiano político mais atrapalhe do que ajude na hora de pensar em consequências, dificultando a formação de uma visão mais geral e a seleção dos fatores realmente importantes (e descarte dos demais). Mas eu imagino que isso seja mais falta de apreço e de dedicação mínima à atividade de previsão do que uma suposta irrelevância desse tipo de conhecimento. Decerto há algo que especialistas conseguem ver que possa conferir alguma vantagem preditiva frente a leigos informados.
Este texto não é um guia sobre como fazer previsões; o objetivo era meramente motivar as pessoas a olhar para o futuro de uma maneira mais clara, a tentar explicar e entender partes do mundo de uma maneira mais consequencial. Em particular, resultados de eleições. Há alguns bons guias para iniciantes na web que posso recomendar em um texto futuro; ou mesmo escrever meu próprio guia.
Uma boa maneira de começar é pelo site predictionbook.com. Criar uma conta não vai tomar mais do que um minuto. Como o nome do site revela, ele serve para registrar e acompanhar suas próprias previsões, que podem ser abertas ao público, se for de sua vontade (mesmo pessoas não cadastradas no site podem ver as previsões). Você também pode dar seus palpites e comentar em qualquer previsão pública. A realização ou não dessas previsões são verificadas nas datas originalmente fornecidas, pelo próprio autor ou qualquer outro usuário do site. Como as previsões em geral são feitas de modo a fornecer critérios claros para verificação, é improvável que surjam dúvidas sobre o resultado de um evento. De todo modo, tanto as regras de verificação quanto o resultado da verificação em si estão abertos para contestação de qualquer usuário do site. Se você quiser, o site vai te avisar por email quando for a data de verificação de uma previsão, ou mesmo quando alguém contribuir ou comentar em uma previsão. É comum que se façam previsões de longo prazo, 10, 20 ou mesmo 30 anos. O site existe desde outubro de 2009 e prevejo que continuará em funcionamento por ao menos mais 10 anos, 85% de probabilidade. Supõe-se também que não é tão difícil assim fazer o backup de suas previsões. Existem alternativas ao PB.com, incluindo aplicativos pra você previsões offline no seu telefone. Minha primeira previsão no site foi feita em 24 de junho de 2012 e até o momento já registrei 238 previsões lá (estou muito distante de ser um heavy user). Meu nível de calibração é bastante razoável, acho.
Talvez seja interessante partir da sessão happenstance, que reúne previsões mais próximas da data de verificação, de modo que você pode ter um feedback mais rápido das suas previsões. No momento, já existem diversas previsões registradas para eventos relacionados às eleições de 2018. Mas você pode e deve criar e registrar suas próprias previsões.