Gladstone

Diagnóstico não é identidade

Do que fazemos de bom, que se destaca em relação ao comportamento médio do momento, não há tanto do que se gabar.

De fato, é muito mais natural a alguns de nós agir de forma “racional” (serena, menos envolvida emocionalmente), ser relativamente imune aos fanatismos. O esforço para nos infiltrar e nos submeter a um campanha de doutrinação seria sobrehumano (e, na enorme improbabilidade de êxito, aí sim digna de nota ou elogio – não fosse ação tão estúpida, claro).

Quase todo ser humano se agarra fortemente a algum conjunto de crenças (mais ou menos razoáveis) sobre o funcionamento e a ordenação do mundo, para conquistar o mínimo de estabilidade necessária para operar em um ambiente complexo (e é por isso que, ao contrário das previsões mais naïve, os excessos têm crescido com o avanço tecnológico).

Pode ser uma religião, a filosofia da matemática, a inteligência artificial – ou uma ideologia política. A princípio, esse tipo de adesão não gera resultados necessariamente ruins, mas o risco de, sob determinadas condições e circunstâncias (como sempre fora do controle e difíceis de identificar), terminarmos fazendo desse conjunto de crenças a parte mais essencial de nossas próprias identidades é enorme.

Brincar com esses conjuntos de crenças é fundamentalmente uma roleta russa, uma tão grande e tão (in)consequente quanto a envolvida na decisão de se reproduzir.

Dependendo da perspectiva, poderia ser dito que alguns poucos seres humanos possuem uma deficiência singular: a incapacidade de assumir compromissos com conjuntos de crenças, de incorporá-las às suas identidades, mesmo em um nível fundamentamente saudável (supondo que isso é possível), mesmo diante da quase certeza de que se passaria a contar com o apoio e o reconhecimento de um grupo tribal, ainda que a punição seja a incompreensão, o isolamento e ostracismo.

Não estou negando a existência de heróis da resistência anti-ideológica, gente que esteve mergulhada nessa dinâmica por muitos anos ou mesma décadas e sobreviveram a um parto traumático e até ameaçador. Apenas suponho que a maioria dos casos de sucesso reflitam cenários em que os indivíduos não tinham qualquer outra alternativa a não ser se manter à parte.

Portador dessa deficiência, não me orgulho já que não tenho grande mérito nisso – e, ao reconhecer os custos potenciais dessa condição, não me sinto um privilegiado, exceto em situações pontuais (e agora me pergunto o que o mundo nos reserva, se essa deficiência apresentará mais benefícios do que custos, dados os cenários pouco alentadores para o que o futuro parece apontar).