Decisões sob Risco e Incerteza
(Nota: Este é o terceiro texto da minha série sobre decisões. No primeiro, fiz uma breve introdução sobre como tomamos decisões. E no segundo texto falei sobre como devemos começar a resolver um problema de decisão. O objetivo do texto de hoje é acrescentar mais uma camada de realismo a forma como pensamos sobre decisões.)
Incertezas
Termos como incerteza e risco tiveram origem formal no contexto das teorias da probabilidade e da informação, e foram operacionalizados de forma rigorosa pelas ciências atuariais. Diferentes áreas do conhecimento (física, filosofia, economia, estatística, finanças, psicologia, etc.) parecem usá-los de forma ao menos ligeiramente diferente. Apesar disso, o conceito de incerteza é, de um modo geral, aplicável a previsões de eventos futuros, a medições ou observações de algum “sistema” ou fenômeno, e ao que é desconhecido (ou não conhecido por completo) [1].
Grande parte de nossos problemas práticos do dia a dia, seja como indivíduos ou como pequenas e grandes instituições (no limite a economia de um país), envolve algum tipo de planejamento e tentativa de controlar certos aspectos do funcionamento de um sistema de grande ou enorme complexidade. Assim, é comum que recorramos ao auxílio de modelos matemáticos, isto é, a representações simplificadas da realidade. Esses modelos podem ser construídos a partir de observações reais, ou serem puramente teóricos (ou combinações dos dois), podem ser de natureza global ou, mais comumente, estarem associados a partes desses sistemas. Na prática, qualquer decisão relevante é tomada em um “ambiente de incerteza”, com o auxílio de modelos.
É possível identificar ao menos cinco classes diferentes de incertezas quantificáveis (no sentido clássico), de acordo com suas origens [2]:
- incerteza paramétrica: associada aos valores dos parâmetros do modelo (supõe que o modelo tem um estrutura suficientemente próxima da estrutura real);
- inadequação do modelo: resultante da falta de conhecimento ou do conhecimento apenas parcial sobre a estrutura do sistema;
- incerteza algorítmica ou numérica: associada aos processos de análise numérica dos modelos (via erros ou aproximações implementadas);
- variabilidade paramétrica: resultante de variações nos parâmetros reais do sistema ao longo do tempo;
- incerteza experimental: associada a erros nas observações reais do sistema (um fato inerente ao procedimento experimental em si).
Outra dimensão de classificação possível distingue incertezas aleatórias ou estatísticas e incertezas epistêmicas, decorrentes do conhecimento parcial do sistema [3]. Em situações reais, é comum que os dois tipos de incerteza estejam presentes e tenham papel relevante na solução dos problemas de planejamento e de controle.
Quantificação de Incertezas
Com frequência será desejável quantificar as incertezas envolvidas em um problema. Quantificar incertezas significa caracterizá-las e envolve a tentativa de determinar quão prováveis são determinados resultados se alguns aspectos do sistema não forem conhecidos com exatidão. Em geral isso é feito de duas formas:
- Propagando as incertezas associadas às entradas do modelo (por exemplo, quanto aos parâmetros) ao longo dele e até suas saídas. Esse tipo de análise pode ser realizado com o objetivo de, por exemplo, avaliar figuras como média e variância das saídas do modelo (e, por aproximação, do sistema real), ou mesmo estimar uma distribuição de probabilidade completa dessas saídas.
- Fazendo uma quantificação inversa da incerteza, ou seja, estimando a discrepância entre os dados experimentais do sistema e os dados gerados pela simulação do modelo (o que permite atualizar o modelo para aumentar sua adequação estrutural).
Riscos
Risco é uma incerteza sobre o estado atual ou sobre um estado futuro da natureza, sendo esse estado necessariamente associado a um resultado negativo ou indesejável para a entidade em questão, seja ela, por exemplo, um indivíduo, uma empresa ou um país. Nesse contexto, risco estará sempre associado a uma incerteza, mas nem toda incerteza envolverá algum tipo de risco [4]. Quantificar um risco, portanto, envolve determinar a provável freqüência com que o referido estado poderá ocorrer no futuro (ao longo de um horizonte específico de tempo) e, também, a provável intensidade das perdas (financeiras, humanas, etc.) associadas à realização desse estado. Considere, por exemplo, o caso de uma empresa que, tendo identificado um estado da natureza desfavorável a ela (associado à taxa de câmbio, digamos), quantifica o risco a ele relacionado e descobre que há aproximadamente 10% de chances de que ela perca em torno de R$100.000,00 em receitas em um determinado período. Dentro de um processo mais amplo de gerenciamento de riscos, essa empresa poderia procurar uma seguradora e contratar uma cobertura proporcional à perda de oportunidade esperada,isto é, 10x100.000 (mais custos operacionais e o lucro da seguradora).
No exemplo acima o risco a que a empresa está submetida está associado a uma variável exógena (taxa de câmbio), não influenciável por ela, capaz de impor resultados contrários aos seus interesses. O risco também pode ser convenientemente associado às potenciais conseqüências das ações ou decisões de uma empresa (incluindo a “decisão” de não agir), de acordo com os diferentes estados possíveis de serem realizados no futuro. Essa segunda visão envolve, claro, a suposição de que a empresa é capaz de influenciar seus próprios resultados tomando decisões que a favoreça — o que nem sempre será viável, como o exemplo acima sobre a taxa de câmbio pode dar a entender.
Quantificação de Riscos
A avaliação de riscos é apenas um dos passos do processo mais amplo de gerenciamento, que também envolve a identificação, a priorização dos riscos verificados e a sua comunicação ao longo da estrutura organizacional. Assim, de um modo geral, pode ser dito que o gerenciamento de riscos compreende a coordenação e a aplicação econômica de recursos (de diversas naturezas) para minimizar, monitorar e controlar a probabilidade e/ou o impacto de eventos indesejáveis (ou para maximizar a realização das oportunidades).
Além de ser parte integrante do processo de gerenciamento de riscos, a quantificação também encontra impacto direto nas decisões tomadas em um contexto mais amplo. Desse modo, as decisões sobre investimentos, por exemplo, devem formal e idealmente levar em consideração o risco envolvido em cada uma das alternativas existentes, incluindo, se for o caso, a própria disponibilidade de instrumentos para reduzí-lo.
Várias abordagens mais populares para avaliar riscos financeiros foram duramente criticadas em tempos recentes. Parte dessas críticas poderiam ser resumidas do seguinte modo:
- os métodos tendem a deixar de fora da avaliação informações importantes que não podem ser quantificadas ou que são pouco acessíveis (como variações entre classes de organizações expostas a um risco);
- os métodos tendem a ignorar diferenças qualitativas mais sutis entre os riscos avaliados;
- podem desviar a atenção de medidas preventivas;
- podem conduzir ao uso “cego” e reducionista de ferramentas estatísticas [5].
Métodos baseados na análise probabilística ainda são os mais usados. A aplicação de métodos probabilísticos envolve a tentativa de responder três questões básicas:
- O que pode dar errado (com uma estratégia ou uma ação específica) ou quais são os eventos iniciais que podem conduzir a conseqüências negativas/adversas?
- Quais e quão severas são tais conseqüências potenciais?
- Quão prováveis de ocorrer são essas conseqüências?
A terceira questão, em particular, pode ser estudada usando uma árvore de eventos tradicional. Árvores de eventos podem ser usadas para representar e analisar a estrutura lógica dos eventos e situações que, combinados, são capazes de conduzir ao estado indesejável. No entanto, é conceitualmente impossível (no sentido matemático) construir árvores de eventos que sejam completas. Além disso, a própria concepção de cadeias de eventos não leva em consideração as relações indiretas e não lineares de feedback entre os eventos, nem modos de falha inesperados (e, portanto, ausentes do histórico disponível).
A abordagem probabilística clássica para quantificação de riscos supõe uma interpretação da incerteza como a variabilidade apresentada por uma variável ou conjunto de variáveis e, portanto, torna possível ao analista consultar o histórico dessas variáveis na tentativa de estimar os valores futuros dessas variações. No entanto, a incerteza nem sempre é uma característica objetiva da natureza (no sentido conhecido na física quântica, ou seja, “incerteza de primeira ordem”), também podendo resultar da simples falta de conhecimento sobre fatos ou objetos [6]. Nesse caso, é possível que o acúmulo de experiência ou a realização de estudos, testes ou experimentos aumentem o nível de conhecimento sobre o objeto, reduzindo, assim, a incerteza envolvida. Naturalmente, essa elevação do nível de conhecimento se dá a um custo, que pode se revelar inviável sob uma análise de custos e benefícios, ou mesmo diante de restrições de tempo para tomar uma decisão.
Referências
[1] J. Halpern (2005). Reasoning about Uncertainty. Cambridge, MA/London: MIT Press.
[2] M.C. Kennedy e A. O’Hagan (2001): Bayesian calibration of computer models, Journal of the Royal Statistical Society: Series B (Statistical Methodology), 63(3): 425–464.
[3] W.E. Walker, P. Harremoës, J. Rotmans, J.P. van der Sluijs, M.B.A. van Asselt, P. Janssen e M.P.K. Krayer von Krauss (2003). Defining uncertainty: A conceptual basis for uncertainty management in model-based decision support, Integrated Assessment, 4(1).
[4] D. Hubbard (2007). How to Measure Anything: Finding the Value of Intangibles in Business. New York/Chichester/Brisbane: John Wiley & Sons.
[5] N.N. Taleb (2008). The Fourth Quadrant: a Map of the Limits of Statistics. New York: An Edge Original Essay.
[6] P. Gärdenfors e N.-E. Sahlin, Nils-Eric (1982). Unreliable probabilities, risk taking, and decision making. Synthese. 53 (3): 361–386.