Comprar o direito de cumprir: opções como incentivo para hábitos
Em 2019 escrevi um texto curto chamado "Options". A ideia era simples: usar a lógica das opções financeiras para criar incentivos a hábitos e tarefas pessoais. No final, eu mesmo admitia estar "ignorando os aspectos implementacionais mais espinhosos". Sete anos depois, resolvi voltar a ela e fazer o contrário: colocar números, olhar o que a pesquisa diz e ser honesto sobre onde ela provavelmente não funciona.
O problema: a acrasia
Todo mundo conhece a situação. Sabemos o que é melhor para nós e, mesmo assim, não fazemos. Os gregos chamavam isso de acrasia. Para lidar com ela, costumamos usar dois tipos de incentivo.
Punição. Pagar alguém para nos cobrar, assumir um compromisso público, aceitar uma multa se falharmos. Funciona rápido, mas tende a transformar a atividade num peso, e desmorona quando a ameaça some.
Recompensa. O capuccino na padaria boa depois de acordar cedo, um docinho a cada bloco de trabalho cumprido. Funciona mais devagar, mas o resultado costuma ser mais estável.
A ideia: pagar um prêmio pelo direito de cumprir
No mercado financeiro, quem compra uma opção paga um prêmio para ter o direito, mas não a obrigação, de fazer uma operação no futuro. Trazendo para a vida pessoal: na noite anterior, eu "compro" o direito de cumprir um hábito no dia seguinte, pagando um prêmio em reais. Se cumpro, "liquido" a opção e recebo o prêmio de volta, mais um retorno. Se não cumpro, perco o prêmio.
O exemplo original era a corrida. Quero correr 30 minutos, três vezes por semana, sem agenda fixa. Numa noite em que a manhã seguinte parece boa, pago R$ 30 pelo direito de correr. Se corro, recebo R$ 50. Se não corro, os R$ 30 ficam perdidos.
Três argumentos sustentavam a ideia:
- Perder um prêmio não é o mesmo que levar uma multa. Perder R$ 30 que eu decidi investir parece mais o preço de uma escolha minha. A multa parece castigo vindo de fora.
- A flexibilidade faz parte do contrato. A decisão de comprar é tomada na véspera, então dá para levar em conta o cansaço, a agenda ou um fim de semana preguiçoso, sem culpa e sem "quebrar o sistema".
- É mais difícil trapacear. O custo da falha é pago antes, num momento de otimismo. Não preciso de força de vontade no dia ruim para aplicar a punição a mim mesmo.
O que a pesquisa diz
A ideia conversa com uma literatura grande de economia comportamental sobre dispositivos de compromisso (commitment devices). Alguns resultados ajudam a calibrar as expectativas.
Ariely e Wertenbroch (2002) mostraram que as pessoas aceitam impor a si mesmas prazos com custo, e que isso melhora o desempenho, embora prazos autoimpostos funcionem pior do que prazos externos bem espaçados. Reconhecemos o problema, mas nem sempre desenhamos bem a solução.
Nas Filipinas, uma conta de poupança que travava saques aumentou bastante a poupança de quem recebeu a oferta, mas o efeito se dissipou com o tempo. Num programa para fumantes, quem depositava o próprio dinheiro e só o recebia de volta se passasse num teste de nicotina teve mais chance de parar. Só que pouca gente aderiu.
O estudo mais próximo da minha ideia é o de Halpern e colegas, publicado no New England Journal of Medicine em 2015. Eles compararam programas só de recompensa com programas em que o participante fazia um depósito de US$ 150 e, se tivesse sucesso, recebia o depósito de volta mais US$ 650. Isso é, na prática, uma opção: prêmio pago antes, devolução com retorno no sucesso. Os programas de recompensa foram aceitos por 90% dos convidados. Os de depósito, por apenas 13,7%. Mas, entre quem aceitaria qualquer um dos dois, o formato com depósito foi mais eficaz.
Ou seja, o desenho com prêmio antecipado funciona melhor para quem entra, mas assusta a maioria. E a adesão é o gargalo.
Há ainda um alerta clássico. Em creches de Israel que passaram a multar pais atrasados, os atrasos aumentaram, e continuaram altos mesmo depois que a multa saiu (Gneezy e Rustichini, 2000). A multa transformou uma obrigação moral num serviço com preço. É exatamente o risco do meu primeiro argumento: se perder o prêmio não dói, ele vira só o preço de faltar.
Um exemplo com todos os números
O exemplo de 2019 era "tudo ou nada" para um dia. Uma versão melhor é semanal e tem preço de exercício (strike), como uma opção de compra de verdade.
O hábito: sessões de escrita de 40 minutos, de segunda a sexta. A meta é fazer 4 das 5. No domingo à noite, pago um prêmio de R$ 25. O strike é 2 sessões. Na sexta, recebo R$ 15 por sessão acima de 2.
| Sessões feitas | Recebo | Resultado líquido |
|---|---|---|
| 0, 1 ou 2 | R$ 0 | perco R$ 25 |
| 3 | R$ 15 | perco R$ 10 |
| 4 (meta) | R$ 30 | ganho R$ 5 |
| 5 | R$ 45 | ganho R$ 20 |
O ponto de equilíbrio fica em cerca de 3,7 sessões, como numa call, que só dá lucro quando o preço passa do strike mais o prêmio. Fazer 3 sessões não é fracasso total, o que reduz o efeito "já perdi, vou largar tudo" quando a semana começa mal. E a sessão extra vale mais que a meta, o que dá um motivo para ir além sem tornar a meta obrigatória.
O preço é justo? Se meu histórico diz 15% de chance de fazer 2 ou menos, 25% de fazer 3, 35% de fazer 4 e 25% de fazer 5, o pagamento esperado é R$ 25,50. Um prêmio de R$ 25 é praticamente justo: em média não ganho nem perco dinheiro, e todo o efeito vem do incentivo. Muito abaixo disso, a opção vira presente. Muito acima, vira imposto sobre a própria disciplina.
Numa opção diária que paga R$ 10, o prêmio justo é R$ 10 vezes a probabilidade de cumprir. Com 50%, o prêmio é R$ 5 e o ganho é R$ 5. Com 90%, o prêmio é R$ 9 e o ganho é só R$ 1. Hábitos difíceis rendem mais, o que empurra para metas desafiadoras. O problema é que, se eu mesmo escolho a probabilidade, posso me enganar a meu favor. Por isso o histórico registrado importa tanto.
Como fazer sozinho
Se o dinheiro sai do meu bolso e volta para o meu bolso, nada mudou de verdade. Muda só o rótulo do dinheiro e o esforço necessário para desfazer o compromisso. Então a fórmula importa menos do que quem guarda o dinheiro.
- Uma conta separada, num banco que não uso no dia a dia, sem cartão nem atalho no celular. O prêmio vai por Pix na véspera.
- Uma pessoa de confiança que recebe o prêmio e paga o retorno. Desfazer o acordo exige uma conversa constrangedora, e isso ajuda.
- Um destino para os prêmios perdidos em que eu não escolheria gastar: uma doação ou, no estilo do stickK, uma "anticaridade".
- Um orçamento de recompensa de onde sai o retorno, reservado para algo de que eu gosto.
E algumas regras: a opção só pode ser comprada até as 22h da véspera; o critério é escrito antes e é verificável ("40 minutos com cronômetro", não "escrevi um pouco"); cada liquidação exige evidência; há uma lista fechada de motivos de força maior; há um teto mensal de prêmios; e uma vez por mês comparo as probabilidades que estimei com o que de fato aconteceu.
Essa última parte é a que mais me agrada. Uma planilha simples, com a probabilidade estimada e o resultado, vira uma ferramenta de previsão. Com algo como o escore de Brier, dá para descobrir se sou otimista demais sobre "amanhã".
Como fazer com outras pessoas
No mercado, toda opção tem um lançador: quem recebe o prêmio e se compromete a pagar se ela for exercida. Sozinho, sou as duas partes. Com outra pessoa, surge uma contraparte de verdade.
Um parceiro. Um amigo lança a opção para mim. Se o preço for justo, em média ele não perde, e ainda quer me ver cumprindo. Dá para ser recíproco, e a contraparte é também a verificadora natural.
Um fundo em grupo. Seis colegas pagam R$ 30 cada. Quem cumpre a meta recebe o prêmio de volta mais uma parte dos prêmios de quem falhou. Se quatro cumprem, cada um recebe R$ 45. Ninguém precisa bancar o retorno. É o modelo do DietBet. A desvantagem é que meu ganho depende do fracasso dos outros, o que pode criar uma torcida silenciosa contra os colegas. Mandar parte dos prêmios perdidos para uma causa comum atenua isso.
Um patrocinador. Uma empresa ou uma família pode cobrar um prêmio pequeno e pagar um retorno maior, porque valoriza o resultado. Aqui a relação de poder muda: o "direito sem obrigação" pode virar pressão, e dados sobre hábitos viram dados sensíveis. Precisa ser estritamente voluntário.
Em qualquer arranjo coletivo, vale combinar antes qual evidência é aceita, o prazo para enviá-la e quem decide em caso de dúvida.
Poderia existir uma plataforma?
Já existem várias. O Beeminder cobra quando você sai da linha. O stickK permite mandar o dinheiro perdido para uma anticaridade. O Forfeit verifica evidências com IA e revisão humana. O Pact prometia pagar quem cumpria e, em 2017, fez acordo com a FTC americana por não entregar as recompensas. Confiança e custódia pesam mais do que qualquer recurso.
O que as opções acrescentam a isso:
- Um lado positivo. O Beeminder só tira dinheiro. Uma opção também devolve com retorno, o que pode melhorar a adesão, justamente o gargalo.
- Preço pela probabilidade. O prêmio depende do histórico. Com 17 sucessos em 20 tentativas, uma estimativa simples dá cerca de 82%, e uma opção que paga R$ 10 custaria uns R$ 8,20.
- Autosseleção. Se o preço supõe 70% e eu acho que minha chance é 85%, compro. Comprar ou recusar revela o que acredito sobre mim.
- Informação. Os prêmios aceitos são previsões. Com o tempo, dá para aprender quais hábitos, horários e formatos funcionam.
Há um ponto de desenho que me parece central: se a empresa lucra com a falha do usuário, ela tem incentivo para vender metas difíceis demais. Se lucra com assinatura, quer que ele tenha sucesso.
E há a regulação. No Brasil de hoje, uma plataforma que recebe dinheiro e paga conforme um evento incerto corre o risco de ser enquadrada como aposta, derivativo ou serviço de pagamento sem autorização, num momento em que as regras sobre apostas e mercados de previsão estão mudando rápido. A versão viável é mais modesta: uma ferramenta que organiza e verifica contratos que as próprias pessoas fazem com o próprio dinheiro, sem nunca segurar esse dinheiro.
No extremo: um mercado
Se uma opção pessoal tem preço, por que não deixar outras pessoas comprarem e venderem? Um contrato que paga R$ 1 se eu fizer 4 sessões nesta semana, negociado a R$ 0,72, diria que o mercado me dá 72% de chance. É a lógica do Polymarket, da Kalshi e do Manifold.
O problema é estrutural. Numa opção de ações, o investidor não decide o preço da empresa. Aqui, eu decido se escrevo. Se puder apostar contra mim, lucro falhando de propósito. Quem apostou no "não" tem interesse em me atrapalhar. Um mercado sobre os hábitos de uma pessoa terá pouca liquidez, e o preço vai refletir mais o que os amigos querem ver do que uma previsão. E apostar se alguém vai emagrecer ou terminar a tese pode virar exposição e pressão.
Meu veredito: como mercado aberto com dinheiro real, não faz sentido. Faz sentido em versões limitadas: com dinheiro de brincadeira ou reputação, como no Manifold, com a regra de que a pessoa não negocia no próprio mercado; só do lado positivo, em que terceiros patrocinam o sucesso mas ninguém lucra com a falha; ou num grupo fechado e de confiança.
O valor mais duradouro do "mercado" talvez seja conceitual. Ele me obriga a tratar promessas a mim mesmo como previsões que dá para conferir depois.
O que vem agora
A ideia de 2019 se sustenta melhor do que eu esperava. As pessoas procuram compromissos com custo, e o formato "deposita antes, recebe com retorno no sucesso" funciona para quem aceita. Os limites também estão claros: adesão baixa, efeitos que se dissipam e o risco de o prêmio virar licença para falhar.
O próximo passo é testar: oito semanas com a opção semanal de escrita, uma conta separada e uma pessoa de confiança verificando. Depois, um fundo piloto com quatro a seis amigos, por quatro semanas, com regras escritas e prêmios perdidos indo para uma causa comum. Só então pensar em ferramenta.
Se você quiser testar junto, ou já tentou algo parecido, me conta.
Referências principais: Ariely e Wertenbroch (2002), Psychological Science; Ashraf, Karlan e Yin (2006), QJE; Giné, Karlan e Zinman (2010), AEJ Applied; Bryan, Karlan e Nelson (2010), Annual Review of Economics; Halpern et al. (2015), NEJM; Gneezy e Rustichini (2000), Journal of Legal Studies; Wolfers e Zitzewitz (2004), JEP; Taleb, Antifrágil (2012).