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Como tomar uma decisão: introdução

Como você faz escolhas de pequeno ou médio nível de importância na sua vida pessoal? Por exemplo, decisões de consumo associadas a algum potencial de entretenimento (que filme escolher entre os disponíveis nas salas de cinema em um raio de 20 quilômetros da sua residência) ou à aquisição de conhecimento que não temos expectativa de usar no curto prazo (que livro comprar como introdução à “genética dos gatos domésticos”).

Apoio à Tomada de Decisão é uma área séria, com centenas de livros já publicados, dezenas de periódicos acadêmicos especializados, milhares de papers disponíveis (naqueles e em centenas de outros periódicos) e milhares de consultores certificados cobrando USD 20.000 pra ajudar clientes a formalizar seus problemas de decisão.

Mas você não precisa pagar tudo isso — imagine-se tendo que pagar R$5 mil pra modelar e analisar uma decisão de compra cujo preço médio das alternativas é de R$15 mil — pra ter acesso aos benefícios que a formalização do seu problema pode trazer. De fato, para as classes de decisões de nosso interesse nesta sequência, a aplicação de métodos simples pode trazer quase todas as vantagens das técnicas mais sofisticadas. Alguns deles exigirão apenas papel, caneta e, no máximo, uma planilha eletrônica [1].

Grande parte dos métodos prescritivos da Teoria da Decisão requer que se extraia uma função de utilidade explícita da pessoa que vai decidir (pra si mesma ou para uma organização). Em nosso dia a dia, a maioria de nós, confrontado com um problema de decisão (ênfase na passividade), levanta 4 ou 5 alternativas, pensa rapidamente à respeito e escolhe aquela que nos parece mais atraente.

Na verdade, podemos fazer melhor do que isso, e ao menos abrir a caixa preta do “feeling” em alguns aspectos ou características por onde distribuir nossas preferências. O exemplo mais batido em textos sobre Apoio à Tomada de Decisão é o da compra de um automóvel, então vou fugir desse. Considere, ao invés disso, o exemplo da escolha de filme que já mencionei.

Pra simplificar, digamos que seu problema é apenas escolher um filme, e não envolve a seleção conjunta do dia em que irá ao cinema, que com frequência embutem variações de preço, por exemplo.

Hoje estão disponíveis os seguintes filmes em salas de cinema a no máximo 20 quilômetros de mim:

Aquaman
Wifi Ralph (Ralph Breaks the Internet; animação)
Detetive do Prédio Azul 2 (infantil)
Bumblebee
Dragon Ball Super Broly
Minha Vida em Marte (comédia nacional)
O Manicômio (terror)

Digamos que de imediato poderei eliminar alternativas que prevejo com facilidade que terão um péssimo desempenho nos aspectos de decisão que vou escolher. (Por exemplo, eu eliminaria … todos; bem, férias escolares, e não estou procurando um filme pra meus filhos.)

De que maneira eu posso representar minhas preferências, nesse contexto? Gênero aparente costuma ser o aspecto mais lembrado. Muitos consideram direção e elenco também. Nível de popularidade do filme será levado em conta por vários, já que este pode influenciar não apenas a concorrência por assentos na sala de cinema como também a faixa etária média de seus companheiros de exibição. Talvez você queira consultar e dar algum peso às avaliações de um par de críticos com que se identifica, ou ao rating do IMDB. A princípio, não há limites para o conjunto de aspectos que as pessoas podem achar relevantes na hora de escolher um filme para assistir, mas a maioria delas vai se satisfazer com 3 ou 4 características.

Naturalmente, há também um grande número de maneiras de “complicar” a representação do problema — ou seja, de aproximá-la da realidade. Todos os filmes na lista estão sendo exibidos em mais de uma sala de cinema (na verdade a lista é literalmente a mesma em todos os centros de exibição; assim, eu posso dividir a alternativa “Aquaman” em “Aquaman há 8 km”, “Aquaman há 15 quilômetros”, etc.) As características das salas de cinema também podem contar, tanto o tipo de exibição (2D ou 3D, legendado ou dublado) quanto a qualidade dos recursos básicos (conforto dos assentos, refrigeração, tipos de lanches disponíveis, etc.). Há também o aspecto óbvio do preço da entrada, que tende a variar entre os centros de exibição. Na verdade, em muitos casos (i.e. para muitas pessoas) serão esses fatores adicionais os preponderantes, e não os primeiros. Em última instância, será a importância da decisão para você que determinará o nível adequado de adesão à realidade do seu modelo. Note que alguns dos aspectos de decisão mencionados estão relacionados ao filme em si (como forma de arte), outros às características ambientais que influenciarão a sua experiência.

Selecionadas as alternativas relevantes ou viáveis e os aspectos ou critérios de decisão, será necessário encontrar uma forma de avaliar cada alternativa ao longo de cada aspecto, assim como uma maneira de agregar essas avaliações em um único número que represente um nível global de satisfação. Essa é uma forma de aproximar um valor de utilidade, e por meio dela será possível rankear as alternativas de acordo com as suas preferências.

Porém, para agregar as avaliações individuais, será antes necessário determinar a importância relativa de cada aspecto de decisão para você. Mas dizer o quanto você se importa com cada aspecto nem sempre é fácil. Uma maneira comum de tentar aproximar esses valores é fazendo comparações aos pares. Talvez você se importe duas vezes mais com a localização da sala de cinema (distância) do que com seu conforto, e este seja três vezes mais importante que a qualidade percebida do elenco do filme. Se organizarmos todas as comparações possíveis em uma matriz, será possível calcular um vetor de pesos relativos de uma forma relativamente simples.

O objetivo desta sequência de textos será detalhar cada um dos aspectos mencionados nesta introdução. O tema do próximo texto será a estruturação do problema de decisão, ou seja, a maneira correta de identificá-lo, descobrir alternativas de solução e critérios para decisão.

Antes de concluir, quero pedir um favor aos leitores. Deixe nos comentários exemplos de situações de decisão não profissional mas que afetam sua vida, e que você acha que poucas pessoas do seu convívio amplo tiveram a oportunidade de conhecer. (Pra dar um exemplo batido e grosseiro, digamos que você gosta de escrever ficção nas horas vagas e precisa decidir que rumo dar a um determinado personagem. O universo de pessoas que fazem isso nas horas vagas não deve ser grande.)

[1] Para alguns casos mais simples, com apenas duas ou três alternativas e aspectos de decisão, fazer uma lista de prós e contras de cada alternativa e tentar encontrar um “equilíbrio” qualitativo (um conselho ouvido desde Benjamin Franklin e associável a um método estatístico dos mais básicos), pode ser quase tão eficiente quanto usar uma técnica formal para determinar os pesos dos aspectos de decisão.