Gladstone

Como escolher suas brigas: uma introdução

As pessoas parecem ter ficado bastante animadas com a descoberta de que podem conseguir coisas relevantes gritando bem alto ou dando pauladas em alguém. Por um lado, é claro que isso é positivo. Saber lutar é uma das habilidades humanas básicas, diria Robert Heinlein. Hoje não há desculpas pra não saber lutar. Há sempre uma arma disponível que cabe no seu bolso, na sua estrutura física, na sua configuração neurológica. Descubra sua arma, pratique.

O problema é que só dá pra ganhar algumas coisas no grito, não todas as coisas. Então a habilidade de saber lutar só tem utilidade ou poderá ser explorada em todo seu potencial se ela vier junto com a habilidade de saber escolher as batalhas. E esse é um jogo, um processo de tomada de decisão dinâmica, com elementos cooperativos e concorrenciais, com informação imperfeita. Cada conjunto de decisões tomadas — em que briga entrar, que armas escolher, que estratégia usar, etc. — afeta não apenas os resultados (tipos e intensidades das consequências) dessa batalha, mas também restringe seu espaço de decisões futuras — em que brigas você vai poder entrar, que armas poderá usar, os recursos materiais e reputacionais à disposição. Também afeta, dinamicamente, o balanço de forças entre todos os grupos de interesse, incumbentes e entrantes. Que obviamente se sobrepõem de forma complexa: quase nunca há fronteiras discerníveis, o território está sempre mudando.

Há quem diga que, sob tamanha complexidade e ignorância, o melhor é quase nunca agir. Mas essa não é uma alternativa viável. Existe um equilíbrio a ser descoberto entre utilização dos recursos existentes e prospecção de novos recursos a explorar.

Para piorar, é extremamente raro que uma mesma pessoa seja ao mesmo tempo capaz de enxergar o ambiente de batalha em toda sua riqueza e ser um ótimo lutador. Brasileiros estariam melhorando na capacidade de lutar, mas ignoram completamente as possibilidades e consequências estratégicas de cada escolha. Os que se dizem ou são apontados como estrategistas — “velhas raposas” — na verdade são pura intuição. Em um ambiente em que todo mundo só sabe gritar acefalamente, os velhacos ainda conseguem se destacar. Mas já não dá mais pra navegar bem só com a intuição.

Se você é do tipo que se excita e já pensa em briga quando vê dois amigos embriagados discutindo política monetária no boteco, as notícias são ainda piores. No melhor cenário você será manipulado.

Estão faltando noções básicas de “Pesquisa Operacional” (pra usar um termo antiquado e outrora com conotações bélicas) pra esses movimentos. Estou pensando em criar uma bibliografia recomendada.