Abraçando opiniões enviesadas
Tá ficando preocupado com a intensidade e frequência dos comentários sobre política à medida que as disputas eleitorais deste ano se configuram? Notou que mesmo tão cedo ja estamos bem próximos do limite do suportável? Pensando até em já dar um "tempo nas redes sociais"?
Quer saber como eu perdi o medo e aprendi a amar opiniões enviesadas?
Vieses temos todos, mas este "guia" so será útil aos que ao menos não têm grande identificação com corrente ideológica alguma. (Mas eu suponho que reconhecer isso seja meio tricky: até membros dos cultos mais macabros podem achar com sinceridade que suas filiações não prejudicam seus julgamentos e decisões.)
Parte do segredo está em reconhecer que na prática não se deriva tanto valor assim de opiniões imparciais. Ou, pra ser mais realista, dos esforços (falhos) para produzir esse tipo de opinião. Opiniões com pretensões de imparcialidade falham no aspecto mais importante, em sua principal "função social": ser interessante e iluminar fatores que recebem menos atenção no debate público oficial. Em suma: são chatas, oficiosas, com conteúdo informacional próximo de zero e danosas ao pensamento independente.
Não estou dizendo com isso que você deve abraçar todo tipo de opinião política que vê no mercado. Esta é uma indústria em contínua ascensão, não existem barreiras de entrada e a atenção é escassa. No fim, a maioria das opiniões sobre política são hediondas. Devemos notar sua existência mas nos livrarmos delas o mais rápido possível.
Quase tudo se resume em um esforço de curadoria do seu feed. As opiniões devem ser avaliadas de acordo com o que podemos apreender sobre os mecanismos que as geram. Ou seja, você na verdade deve selecionar pessoas, não opiniões. As pessoas selecionadas podem ter pouca ou nenhuma relação com os produtos daqueles mecanismos (as opiniões resultantes em si). Assim, não dá pra substituir por uma regra simplista com base em categorias forçadas de "moderação" e "extremismo", por exemplo. Isso te obriga a ser tolerante ao menos no princípio. Uma opinião estranha ou ousada em isolado não te diz nada. Dependendo do contexto e do nível aparente de profundidade envolvido, ela pode até qualificar essa pessoa para observação mais detalhada: a tentativa de revelar parte dos componentes desse mecanismo. (É claro que em algum momento você pode decidir que tal pessoa é so um "extremista padrão" e abandonar.)
Isso significa que, antes de tudo, esse é um processo de longo prazo. Se você ainda não fez nada semelhante a isso até hoje, mesmo que de forma intuitiva, então não terá mais tempo para esta eleição - que é ademais o pior contexto para observação. Que fique claro que esse é um processo que gera resultados independente de contexto; não faz sentido selecionar mecanismos apenas pela sua produção em política (que por sinal é dos produtos menos relevantes; se seu mecanismo candidato so produz opinião política você deve abandona-lo imediatamente).
Se você tem um mínimo de clareza sobre os vieses de cada um (a princípio viável se você já identificou um mecanismo), então deve usar essa informação para balancear sua seleção da melhor maneira possível.
Minha hipótese é que existem contextos em que você pode extrair mais informação útil sobre a realidade observando como as pessoas reagem a ela do que pela observação direta dos fatos em si (que com frequência é impossível, aliás). Mais uma vez, desde que sejam pessoas específicas que você já teve tempo de observar.